22/05/2011

Divagações sem interesse...

Perdoem-me por andar arredia.
Arredia de muita coisa e de muita gente. Tenho tentado manter-me mais próxima de mim.

A campanha eleitoral é asfixiante; as perspectivas de governo são deveras assustadoras - seja qual for o candidato que nos saia na rifa -, o FMI afinal é o bonzinho e até por cá podia ficar a governar, mandávamos a UE embora e até lhe oferecíamos o Sócrates, o Passos Coelho, o Portas e ainda como cereja o Cavaco Silva. Era o paraíso, só os portugueses e o FMI.
Claro que isto foi um à parte, não existem contos de fadas nem duendes ou mágicos; por isso a realidade  - a dura realidade - entrará a doer depois de 5 de Junho.
Tenho tentado ver alguns filmes, mas deixei passar o Indie, por inércia, por cansaço, por trabalho, principalmente por falta de paixão. Sou das que acredita que tudo o que se faz na vida deve ser feito com o coração, com vontade, para além do "vamos a um cineminha?".
Passou o Indie, mas tenho-me dedicado a aproveitar as esplanadas de Lisboa, belas, algumas. A da Graça, a do Adamastor e outras mais simples, mesmo ao pé de casa. Esplanadas, bom tempo e amigos são ingredientes para uma relação perfeita, ao fim do dia, depois do trabalho e antes de se enfrentar o trânsito de regresso a casa.
Ah! na 4ª feira fui ver o Tulpan, um filme de Sergei Dvortsevoy, divinal!
O Director do FMI foi apanhado, é conspiração? haverá uma teoria da teoria da conspiração? Pode ser, mas faz-me pensar na minha filosofia: "tarde ou cedo a vida traz a factura". Por outro questiono-me sempre sobre esta matéria de que somos feitos, se a teoria da conspiração for verdade, o que se faz só para se afastar um adversário político... (Não que tenha muita pena do senhor, tenho mais da sua família).
De interesse pouco tenho feito, tirando os passeios pela Arrábida e a pintura da casa, nada comparáveis mas igualmente  importantes para mim.
Apenas a realçar que no outro dia encontrei a Mariana que achava que eu lhe devia responder a uma pergunta. Dizia-me "mero interesse sociológico" (?!)
            Mariana:  Diz-me uma coisa que sintas que valeu a pena na tua vida.
assim de repente.. foram muitas, são quase 50 anos, anos que se traduzem em bons e maus momentos; e porque a vida não é só a duas cores poderei dizer que houve bons momentos, muitos, outros insignificantes, e outros muito maus. Sobre esses não vou sequer lembrar. Somos um produto do passado, ponto final!

Mariana: Ok! mas responde lá à pergunta
Há no entanto, algo que sinto que valeu  a pena na minha vida. Desenganas-te se pensas que falo de amor, de viagens de sucessos profissionais, todos foram certamente muito importantes, cada um à sua escala.
Mariana - Então falas do quê? só quero uma resposta simples.
(respostas simples, pois...)
Valeu a pena aprender a perdoar, sobretudo quem mais nos magoou; sentir que existem coisas que não nos compete a nós fazer justiça. Deus, o universo, a vida...enfim, qualquer coisa... encarrega-se disso, mesmo que não cheguemos a saber que a justiça foi feita... (diz o ditado "o mal dos nossos avós pagamos nós").
Sentir que se foi sincero e integro de sentimentos; que se viveu acima das raivas e vinganças mesquinhas; que as pessoas que estão connosco, estão por opção, de coração, sem amarras...
Saber que em momento algum o meu inconsciente, os meus pensamentos, o coração ou a consciência me apoquentam e que estão em paz é muito compensador.
Porque é que isto é importante, porque falo nisto?
Porque no outro dia, na paragem de autocarro, na fila, ali mesmo atrás de mim alguém falava ao telemóvel e dizia (e isto é mesmo verdade, eu estava incrédula, não apenas pelo acto em si mas por a pessoa o estar a dizer em voz alta) , "não aguento mais, esta dúvida e esta certeza de que ele ficou comigo por chantagem e não porque me ama. Eu venci mas lá no fundo sei que ele não é feliz e que não a esqueceu".
Tive pena da mulher, porque na verdade tenho pena das mulheres que são capazes de fazer tal, engravidar para "prender" o companheiro; ameaçarem matar-se ou outras coisas tais...
O mundo é um lugar estranho e o ser humano nem se fala.
Bem Mariana, só te posso dizer que vale a pena ser íntegra de sentimentos e de acções. 
Não era isto que Mariana queria ouvir, mas era isto que eu precisava de lhe dizer, embora tenha  a certeza que esta resposta não teve qualquer interesse sociológico para a Mariana.



DOS AFECTOS

Como fazer-te saber que há sempre tempo?

Que temos que buscá-lo e dá-lo…

Que ninguém estabelece normas, senão a vida…
Que a vida sem certas normas perde formas…
Que a forma não se perde com abrirmo-nos…
Que abrirmo-nos não é amar indiscriminadamente…
Que não é proibido amar…
Que também se pode odiar…
Que a agressão porque sim, fere muito…
Que as feridas fecham-se…
Que as portas não devem fechar-se…
Que a maior porta é o afecto…
Que os afectos definem-nos…
Que definir-se não é remar contra a corrente…
Que não quanto mais se carrega no traço mais se desenha…
Que negar palavras é abrir distâncias…
Que encontrar-se é lindo…
Que o sexo faz parte da lindeza da vida…
Que a vida parte do sexo…
Que o porquê das crianças tem o seu porquê…
Que querer saber de alguém não é só curiosidade…
Que saber tudo de todos é curiosidade malsã…
Que nunca é demais agradecer…
Que autodeterminação não é fazer as coisas sozinho…
Que ninguém quer estar só…
Que para não estar só há que dar…
Que para dar devemos antes receber…
Que para nos darem há também que saber pedir…
Que saber pedir não é oferecer-se…
Que oferecer-se, em definitivo, não é querer-se…
Que para nos quererem devemos mostrar quem somos…
Que para alguém ser é preciso dar-lhe ajuda…
Que ajudar é poder dar ânimo e apoiar…
Que adular não é apoiar…
Que adular é tão pernicioso como virar a cara…
Que as coisas cara a cara são honestas…
Que ninguém é honesto por não roubar…
Que quando não se tira prazer das coisas não se vive…
Que para sentir a vida temos de esquecer que existe a morte…
Que se pode estar morto em vida…
Que sentimos com o corpo e a mente…
Que com os ouvidos se escuta…
Que custa ser sensível e não se ferir…
Que ferir-se não é sangrar…
Que para não nos ferirmos levantamos muros…
Que melhor seria fazer pontes…
Que por elas se vai à outra margem e ninguém volta…
Que voltar não implica retroceder…
Que retroceder também pode ser avançar…
Que não é por muito avançar que se amanhece mais perto do sol…
 Como fazer-te saber que ninguém estabelece normas, senão a vida?
 Mario Benedetti

5 comentários:

Fê-blue bird disse...

Um texto COM INTERESSE :)
Dos afectos, soberbo !
O vídeo interessante, muito interessante.

Um post perfeito!

beijinhos

Isa GT disse...

Tento ser íntegra de sentimentos e acções... mas tenho dúvidas... se é uma qualidade ou um defeito.
O melhor será não dizer à Mariazinha que vale a pena ser assim ;)

Bjos

Lis disse...

Suas divagaçoes sempre me interessam , leio-as com atenção e fico bem ,sentindo que minhas paisagens são quase as mesmas .
Reforço que vale a pena ser íntegra e nao se deixar corromper por sentimentos mesquinhos.
Estou a torcer pelo 5 de junho.
Qua a carneirada saiba escolher .Muitas vezes é isso que somos carneirinhos sem atitude, estivéssemos descontentes boicotávamos o voto.E se o fazemos arranja-se formas de se dar bem, são uns galhordas.
Porisso desisti deles , talvez das marianas também,
só quero saber de poesia , alheia e feliz| rs
abraços amiga

Rafeiro Perfumado disse...

Integridade, esse valor tão abanado... ainda no outro dia estava na Costa da Caparica e atrás de mim um grunho berrava ao telefone "mas se eu lhe estou a dizer que não posso, estou no Algarve".

Rosa dos Ventos disse...

Tenho ido a Lisboa de corrida mas tenho reparado nos jacarandás em flor!
Este verão sei que andarei por lá mais vezes e as suas esplanadas irei aproveitar!

Abraço