23/10/2011

Cântico negro

Lembrei-me deste poema, porque estamos todos a ir por onde o governos nos quer mandar... para o abismo!?
José Régio

"Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!

José Régio
, pseudônimo literário de José Maria dos Reis Pereira, nasceu em Vila do Conde em 1901. Licenciado em Letras em Coimbra, ensinou durante mais de 30 anos no Liceu de Portalegre. Foi um dos fundadores da revista "Presença", e o seu principal animador. Romancista, dramaturgo, ensaísta e crítico, foi, no entanto, como poeta. que primeiramente se impôs e a mais larga audiência depois atingiu. Com o livro de estréia — "Poemas de Deus e do Diabo" (1925) — apresentou quase todo o elenco dos temas que viria a desenvolver nas obras posteriores: os conflitos entre Deus e o Homem, o espírito e a carne, o indivíduo e a sociedade, a consciência da frustração de todo o amor humano, o orgulhoso recurso à solidão, a problemática da sinceridade e do logro perante os outros e perante a si mesmos.

18/10/2011

O medo - Mia couto

Já todos devem ter visto, mas não consigo deixar de divulgar...

16/10/2011

O que nos move?!...

Como raça estamos cada vez pior, generalizando, claro!
Que gente é esta que acredita que há algures no universo um Deus que queira ser adorado com a tortura, a dor, o sofrimento e  a morte de um animal?
Pois é, mas cada vez mais gente, culta e informada, vai às associações de animais pedir gatos pretos (e agora também brancos) para fazer isto!
Revoltante!
Desconfiem de pessoas que insistem muito em querer um gato completamente preto ou branco.
E como muitas das associações já estão  alertadas começam  a pedir cães.
Que fazer?
As associações e canis estão superlotadas e precisam de encontrar donos para os animais (sobretudo os seniores, que a pretexto da  crise, são abandonados pelas famílias que dizem não ter dinheiro para eles. Assim cresce o número de cães cegos, doentes ou apenas velhos precisando de carinho e conforto dos que ama e que julgava que o amavam. Alguns ficam tão tristes que se recusam a comer e a viver, não percebendo porque foram abandonados), mas em quem confiar?
Esta dúvida gera angústia e uma dificuldade enorme em saber como agir.
Em quem confiar?
X
Hoje foi dia de encontro da FADA (FUNDO ALIMENTAR PARA DEFESA ANIMAL).
Quais os objectos deste fundo?
A FADA foi fundada pela Margarida Neto:
ESTE GRUPO É DIFERENTE: DESTINA-SE ÚNICA E EXCLUSIVAMENTE A ANGARIAR, RECOLHER E DISTRIBUIR TODO O TIPO DE COMIDA PARA ANIMAIS, PARTICULARMENTE CÃES E GATOS, POR TODO O PAÍS.
NÃO É MAIS UM GRUPO PARA ADICIONAR SEM OLHAR DUAS VEZES:
QUALQUER MEMBRO DESTE GRUPO OBRIGA-SE VOLUNTARIAMENTE A ENTREGAR, NO MÍNIMO, MENSALMENTE UM SACO DE RAÇÃO DE 2KG PARA CÃO OU GATO. QUAISQUER ENTREGAS EXTRA SERÃO SEMPRE ACEITES COM IMENSA ALEGRIA E MUITO BEM VINDAS PORQUE O QUE INTERESSA MESMO NESTE GRUPO É OBTER O MÁXIMO DE COMIDA PARA ANIMAIS :)))
PORTANTO, ANTES DE SE ADICIONAREM A ESTE GRUPO MUITO ESPECIAL, PENSEM BEM SE DESEJAM MESMO AJUDAR OS ANIMAIS E SEREM ÚTEIS À NOSSA TÃO NOBRE E JUSTA LUTA POR ELES: RESPEITÁ-LOS, AJUDÁ-LOS E SALVÁ-LOS!!!
NÃO PODEMOS SÓZINHAS(OS) SALVAR O UNIVERSO...MAS JUNTAS(OS) PODEMOS TORNAR O MUNDO MELHOR!!! ♥
BEM-HAJAM POR SE JUNTAREM A NÓS!!! SEJAM MUITO BEM VINDAS(OS)!!!! ♥
Existem  várias fadinhas por todo o país e mensalmente marcam encontro com as voluntárias que se comprometem a doar a ração.
Para quem tem Facebook pode pesquisar F.A.D.A, para quem não tem, pode contactar a Margarida Neto margarida.neto@freyssinet-terraarmada.pt indicando a sua área de residência que ela indicará os contactos da respectiva fadinha.
Todo o trabalho é voluntário e de grande mérito. E oq ue são 2kg de ração? mesmo em crise muitos poderão ajudar, acredito que o universo vai retribuir.
PS: Com a proximidade do Inverno são precisas mantas, tapetes, almofadas e coisas que possam aquecer os nossos amigos patudinhos.
Espero que pelo menos um dos leitores que me visita possa ajudar e se esse conseguir outro, entramos na  ajuda em cadeia.
Por mim só queria que os patudinhos fossem mais felizes.
bem hajam!

06/10/2011

Festa do Cinema francês


A Festa do Cinema francês convida a uma verdadeira viagem ao centro da Sétima Arte, voltando a apresentar este ano o melhor da criação cinematográfica francesa.
De 6 de Outubro a 8 de Novembro, as cidades de Lisboa, Almada, Porto, Guimarães, Faro e, por fim, Coimbra, acolherão sucessivamente a Festa do Cinema Francês.
Após o sucesso registado no ano passado (cerca de 33.500 espectadores), o festival continuará a sua trajectória e apresentará, nas dez salas de cinema parceiras, mais de 140 sessões pelo país fora.

Uma programação excepcional…

Uma secção principal de vinte filmes em antestreia, organizada em colaboração com os distribuidores portugueses, dará a descobrir ao público as mais recentes obras da produção cinematográfica francesa. Um grande número de convidados irá acompanhar a apresentação dos seus filmes, entre os quais estão Radu Mihaileanu, com La Source des femmes; Mia Hansen-Love, com Un Amour de Jeunesse; Christine Laurent, com Demain?; ou ainda Mahamat Saleh Haroun, com Un Homme qui crie.
Além da retrospectiva dedicada a Carole Bouquet e da Homenagem a Anouk Aimée na Cinemateca Portuguesa, estamos particularmente contentes por podermos celebrar este ano, através da secção “Cannes em Portugal: 50 anos de primeiras vezes”, o quinquagésimo aniversário da Semana da Crítica do Festival de Cannes.
De forma a prolongar o prazer sentido ao longo das edições anteriores, o festival apresentará novamente “cópias restauradas”, convidando a redescobrir filmes de Georges Méliès e de Pierre Etaix.
E, para que a Festa fique completa, O Universo da Animação permitirá saborear os mais recentes tesouros da animação francesa e o universo maravilhoso de Sylvain Chomet.
http://www.festadocinemafrances.com/12a/

Spot 12a FCF from FCF on Vimeo.
Lisboa:
6 a 16 de Outubro
Cinema São Jorge, Cinemateca Portuguesa e Institut Français du Portugal
Almada:
12 a 16 de Outubro
Forúm Romeu Correia
Porto:
18 a 13 de Outubro
Fundação de Serralves e Cinema Passos Manuel
Guimarães:
20 a 23 de Outubro
Centro Cultural Vila Flor
Faro:
22 a 33 de Outubro
Teatro Municipal de Faro
Coimbra:
2 a 8 de Novembro
Teatro Académico de Gil Vicente

02/10/2011

Fazer arte com o lixo...

Ícones como Marilyn Monroe ou obras de Da Vinci, manteiga de amendoim, imaginação e ousadia são alguns ingredientes da retrospectiva da obra de Vik Muniz. A exposição do artista plástico brasileiro está no Museu Berardo, em Lisboa, até 31 de Dezembro, é de entrada livre e promete a agradar a todos os paladares - até porque o sorriso de Gioconda nunca foi tão guloso. 
http://noticias.sapo.pt/info/artigo/1188894.html
O trabalho de Vik Moniz, em exposição no Museu Berardo, fez-me pensar  no poema da pedra:
O distraído nela tropeçou…
O bruto a usou como projétil.
O empreendedor, usando-a, construiu.
O camponês, cansado da lida, dela fez assento.
Para meninos, foi brinquedo.
Drummond a poetizou.
Já, David matou Golias, e Michelangelo extraiu-lhe a mais bela escultura...
E em todos esses casos, a diferença não esteve na pedra, mas no homem!"

Com efeito, a forma como olhamos para um objecto faz toda  a diferença.
Para mim, resíduos, são o reflexo de uma sociedade cada vez mais consumista, são também a matéria-prima   de trabalho para muitos e são ainda fonte de lucro para outros.
Enquanto cidadã, gosto de fazer a separação selectiva dos resíduos mas nunca seria capaz de fazer arte com eles.
Já Vik Muniz conseguiu  fazer um filme e muitas obras que agora estão expostas no Museu Berardo.
A não perder...   

25/09/2011

Redacção

Numa altura em que a crise veio para ficar, o Alberto João Jardim foi tema de inúmeros comentários, muitos  animais foram abandonados e maltratados, Espanha comemora o fim dos touros de morte e o meu Sporting fez a gracinha de vencer em casa, parece mentira não ter inspiração para escreve.
Esta branca para a escrita faz-me lembrar o tempo das Redacções.
Esta lembrança fez-me sorrir e até me pareceu ouvir a minha professora: - o tema da redacção é sobre as estações do ano.
E ali começava a árdua tarefa de escrever:
Redacção
A Primavera começa a 21 de Março. A Primavera é a estação das andorinhas.
E a D. Maria José passeava pelo corredor, ao aproximar-se da minha carteira eu tremia e ela dizia: onde está a imaginação. Puxem pela cabeça e escrevam algo mais criativo. 
Eu puxava pela cabeça, procurava pensar em coisas diferentes, mas sobre a Primavera não me ocorria mais nada.
As andorinhas fazem os ninhos nos beirais das casas. Eu gosto muito da Primavera porque é a estação das flores…
Na altura se já conhecesse Neruda poderia citar o seu poema:
Quero apenas cinco coisas.
Primeiro é o amor sem fim
A segunda é ver o Outono
A terceira é o grave inverno
Em quarto lugar o verão
A quinta coisa são teus olhos
Não quero dormir sem teus olhos.
Não quero ser... sem que me olhes.
Abro mão da primavera para que continues me olhando.
Pablo Neruda

21/09/2011

A comunicação


"A mensagem é, no sentido geral, o objecto da comunicação. Dependendo do contexto, o termo pode-se aplicar tanto ao conteúdo da informação quanto à sua forma de apresentação. Na teoria da comunicação, uma mensagem é enviada de um emissor para um receptor."
Enquanto humanos temos o dom da palavra, isto é, podemos expressar as nossas opiniões e explicar-nos por meio da fala. 
À priori, temos todas as premissas para que não haja qualquer confusão, ao nível do diálogo, entre os seres humanos.
Para aprimorar esta capacidade para o diálogo, que nos foi oferecida gratuitamente e é intrínseca ao ser humano, a tecnologia ainda pôs ao nosso alcance telefones, telemóveis, mails, videoconferências e mais um rol de objectos com vista à "boa comunicação".
Alguém me sabe explicar porque é cada vez mais difícil as pessoas entenderem-se e comunicarem?
Que barreiras são estas que fazem com que se criem mal entendidos e a spessoas não consigam viver em paz e harmonia?
Nunca estivemos tão bem!
Para a maioria de nós, há electricidade, água, acesso à saúde, alimentação sem termos que esgravatar na terra, temos conforto, acesso à cultura, sabemos ler, vivemos em paz... então porque não vivemos pacificamente?

20/09/2011

Que cavalos são aqueles que fazem sombra no mar...


Lembro-me desta frase muitas vezes. Por diferentes motivos, mas sinto-a muits vezes como verdadeira.
Voltei a sentir a sua veracidade ao longo destas férias. Nada aconteceu como planeado. Pouco fiz do que imaginei. Porém, não posso dizer que tenham sido más as férias, só foram diferentes.
Comecei por ter uma cadela, que hoje está feliz numa nova casa, e desde 6ª feira tenho (não difinitivamente, espero) mais uma gata. 300g de um ser que abandonaram ao pé da minha casa. Ando à procura de dono para ela, entretanto não deixa de ser interessante verificar como um naco de ser tem tanto amor à vida.
Está tão feliz por ter comida e casa que, quando chego a casa é acometida de uma energia impressionante.
Já eu, ando com tão pouco energia e tão espantada e desiludida com a humanidade que me pergunto como é possível ainda me  ir abaixo com acções dos humanos.
Houve um tempo, já lá vão alguns anos, em que julguei que nada mais me magoaria. Engano meu, a vida está sempre pronta para nos dar um pontapé, basta apenas descuidarmo-nos um pouco.
Faço cócegas à vida mas parece que ela é insensível e teima em não se rir para mim... bem, mas  a verdade é que tenho que continuar grata. Grata por tanta coisa, mas bolas já era tempo de tudo se encaixar, ou melhor já er atempo de eu aprender como o cavalo na parada "cagando e andando, sempre de cabeça erguida, como se nada fosse..."
Não sou dada a palavraões mas hoje só me apetece dizer FODA-SE!
Plano
Trabalho o poema sobre uma hipótese: o amor
que se despeja no copo da vida, até meio, como se
o pudéssemos beber de um trago. No fundo,
como o vinho turvo, deixa um gosto amargo na
boca. Pergunto onde está a transparência do
vidro, a pureza do líquido inicial, a energia
de quem procura esvaziar a garrafa; e a resposta
são estes cacos, que nos cortam as mãos, a mesa
da alma suja de restos, palavras espalhadas
num cansaço de sentidos. Volto, então, à primeira
hipótese. O amor. Mas sem o gastar de uma vez,
esperando que o tempo encha o copo até cima,
para que o possa erguer à luz do teu corpo
e veja, através dele, o teu rosto inteiro.

Nuno Júdice, in “Poesia Reunida”

11/09/2011

Poema do silêncio

Em memória de todas as vítimas que directa e indirectamente o 11 de Setembro provocou, fico-me pela poesia


Sim, foi por mim que gritei.
Declamei,
Atirei frases em volta.
Cego de angústia e de revolta.

Foi em meu nome que fiz,
A carvão, a sangue, a giz,
Sátiras e epigramas nas paredes
Que não vi serem necessárias e vós vedes.

Foi quando compreendi
Que nada me dariam do infinito que pedi,
- Que ergui mais alto o meu grito
E pedi mais infinito!

Eu, o meu eu rico de baixas e grandezas,
Eis a razão das épi trági-cómicas empresas
Que, sem rumo,
Levantei com sarcasmo, sonho, fumo...

O que buscava
Era, como qualquer, ter o que desejava.
Febres de Mais. ânsias de Altura e Abismo,
Tinham raízes banalíssimas de egoísmo.

Que só por me ser vedado
Sair deste meu ser formal e condenado,
Erigi contra os céus o meu imenso Engano
De tentar o ultra-humano, eu que sou tão humano!

Senhor meu Deus em que não creio!
Nu a teus pés, abro o meu seio
Procurei fugir de mim,
Mas sei que sou meu exclusivo fim.

Sofro, assim, pelo que sou,
Sofro por este chão que aos pés se me pegou,
Sofro por não poder fugir.
Sofro por ter prazer em me acusar e me exibir!

Senhor meu Deus em que não creio, porque és minha criação!
(Deus, para mim, sou eu chegado à perfeição...)
Senhor dá-me o poder de estar calado,
Quieto, maniatado, iluminado.

Se os gestos e as palavras que sonhei,
Nunca os usei nem usarei,
Se nada do que levo a efeito vale,
Que eu me não mova! que eu não fale!

Ah! também sei que, trabalhando só por mim,
Era por um de nós. E assim,
Neste meu vão assalto a nem sei que felicidade,
Lutava um homem pela humanidade.

Mas o meu sonho megalómano é maior
Do que a própria imensa dor
De compreender como é egoísta
A minha máxima conquista...

Senhor! que nunca mais meus versos ávidos e impuros
Me rasguem! e meus lábios cerrarão como dois muros,
E o meu Silêncio, como incenso, atingir-te-á,
E sobre mim de novo descerá...

Sim, descerá da tua mão compadecida,
Meu Deus em que não creio! e porá fim à minha vida.
E uma terra sem flor e uma pedra sem nome
Saciarão a minha fome.

José Régio, in 'As Encruzilhadas de Deus'

08/09/2011

Amar também é abdicar


A vida põe-me à prova das diferentes formas e feitios. Não sei como as outras pessoas interpretam os acontecimentos da vida, mas eu sinto que esta é uma aprendizagem constante, um desafio...
Todos sabem a minha adoração por animais e o que sofro por não puder fazer mais.
Conheço pessoas que fazem coisas tão espectaculares que acho sempre pouco o que eu faço.
Não resistindo ao olhar da Pilar, cadela que se encontrava no Cantinho dos Animais de Beja  resolvi ir buscá-la e tentar adaptá-la aos gatos.

Foto da Pilar a solicitar ajuda
Abdiquei da semana de férias no Algarve e lá solicitei a vinda da Jasmim (sim quando olhei para ela vi Jasmim). Um ser tão frágil e com um olhar carregado de tristeza. Ao contrário do que estava à espera foi impecável com os gatos.
Estava assustada e por isso dava pouca confiança. Fazia-lhe festas os seus olhos fechavam-se. Uma ternura. Sozinha fazia tantos disparates.. mas nunca me zanguei com ela, sabia que era passageiro e reflexo do seu passado. Tinha tanto medo do quintal que o destruiu... Só na sala se acalmava.
Continuava triste e eu sentia que ela não estava feliz. Ia comigo à esplanada e portava-se lindamente, passeávamos pela rua e ela adorava, ia a casa de amigos e ficava com aquela tristeza... mas sempre bem comportada.
Jasmim em casa
As férias estão a acabar e a minha preocupação era com a Jasmim. Sabia que não a devolveria mas sentia que ela não estava feliz. Pedi tanto a Deus que me ajudasse a fazer o melhor pela Jasmim.
Na 2ª feita telefona-me uma amiga que queria uma cadelinha, pensei na Jasmim. E se ela fosse mais feliz lá? mas será que a estou a abandonar? o que é melhor para ela?
Jasmim na esplanada
Na 3ª feira combinámos encontrar-nos, já tinha decidido que não era capaz de a entregar (ela chegou 6ª feira à noite mas foram dias de intensidade em que ela era o centro das atenções). Disse-lhe que não seria capaz de entregar a cadela. Diz-me ela: anda ver o local onde ela fica e com quem; não custa nada.
Lá fui decidida a pedir desculpa por ter prometido entregar a cadela e agora não ser capaz de o fazer.
Para espanto meu a Jasmim reagiu à sua nova dona como não tinha reagido comigo: cheirou-a e levantou a cabeça.
Naquele momento só conseguia chorar. O que fazer? estaria a ser egoísta entregando a Jasmim? seria egoísta por ficar com ela?
A entrega de jasmim
Acabei por entregá-la por que percebi que ali seria mais feliz. Só pensava que tenho por vezes Amar também é abdicar.
O meu coração continua  apertado e choro ao ver as suas fotos. Confesso que me pesa a consciência porque uma parte de mim sente que a abandonou, mas ao vê-la assim, serena aquieto-me um pouco.
Está feliz a jasmim, os seus olhos já brilham: e isso é o mais importante.
Foi uma desafio e uma aprendizagem...

A jasmim na nova casa...
Sê feliz minha doce jasmim!

18/08/2011

A Voz que Nos Rasgou por Dentro



A Voz que Nos Rasgou por Dentro
De onde vem - a voz que 
nos rasgou por dentro, que
trouxe consigo a chuva negra
do outono, que fugiu por
entre névoas e campos
devorados pela erva?

Esteve aqui — aqui dentro
de nós, como se sempre aqui
tivesse estado; e não a
ouvimos, como se não nos
falasse desde sempre,
aqui, dentro de nós.

E agora que a queremos ouvir,
como se a tivéssemos re-
conhecido outrora, onde está? A voz
que dança de noite, no inverno,
sem luz nem eco, enquanto
segura pela mão o fio
obscuro do horizonte.

Diz: "Não chores o que te espera,
nem desças já pela margem
do rio derradeiro. Respira,
numa breve inspiração, o cheiro
da resina, nos bosques, e
o sopro húmido dos versos."

Como se a ouvíssemos.

Nuno Júdice, in "Meditação sobre Ruínas"

09/08/2011

E quem não gosta de um bom livro?


Livros

Caetano Veloso

Composição: Caetano Veloso
Tropeçavas nos astros desastrada
Quase não tínhamos livros em casa
E a cidade não tinha livraria
Mas os livros que em nossa vida entraram
São como a radiação de um corpo negro
Apontando pra a expansão do Universo
Porque a frase, o conceito, o enredo, o verso
(E, sem dúvida, sobretudo o verso)
É o que pode lançar mundos no mundo.

Tropeçavas nos astros desastrada
Sem saber que a ventura e a desventura
Dessa estrada que vai do nada ao nada
São livros e o luar contra a cultura.

Os livros são objetos transcendentes
Mas podemos amá-los do amor táctil
Que votamos aos maços de cigarro
Domá-los, cultivá-los em aquários,
Em estantes, gaiolas, em fogueiras
Ou lançá-los pra fora das janelas
(Talvez isso nos livre de lançarmo-nos)
Ou ­ o que é muito pior ­ por odiarmo-los
Podemos simplesmente escrever um:

Encher de vãs palavras muitas páginas
E de mais confusão as prateleiras.
Tropeçavas nos astros desastrada
Mas pra mim foste a estrela entre as estrelas

05/08/2011

Bom senso precisa-se!

"Chinesa reza por seus antepassados durante cerimônia do Dia dos Ancestrais no mosteiro Kong Meng San Phor Kark See, em Singapura. Milhares de chineses visitam cemitérios, limpam túmulos e oferecem chá em memória aos seus entes queridos"
Fico sempre espantada com muitas das informações que recebo por e-mail. Mails generalistas que afirmam coisas que ninguém para para questionar.
Às vezes ainda procuro uma resposta oficial e reencaminho-a para  os que habitualmente costuma divulgar este tipo de informação.
Quem é que no seu juízo perfeito acredita que se marcarmos o código do cartão multibanco ao contrário, a PSP sabe que é sinal de que estamos a ser assaltados? e quem tem uma capicua? isto para não falar em pensamentos mais elaborados. A PSP não tem dinheiro para as fardas, para contratar mais agentes, quanto mais ter UMA CENTRAL SOFISTICADA QUE LHE PERMITISSE SABER O QUE SE PASSA EM CADA MULTIBANCO...
A lista de mails sem sentido é vasta: crianças desaparecidas (com fotos que parecem tiradas do álbum de algum pedófilo) , ninhadas de labradores para abate, pedidos de sangue para alguém que pelos vistos morre se não houver um dador (é preciso não ter o mínimo conhecimento de como funciona o instituto de sangue para acreditar nisso), etc. etc.
De todos, o que me impressiona mais é o de que não há funerais de chineses em Portugal porque estes comem os seus mortos.
Como é possível alguém acreditar nisto? Até há bem pouco tempo achava que esta afirmação só circulava por e-mail. Porém, qual não é o meu espanto quando, logo pela manhã, no café aqui ao lado, se falava neste assunto como se fosse uma verdade óbvia.
Pergunto:
-mesmo que todos os chineses que vivem em Portugal fossem canibais, acham que iam comer a família?
imaginam a cena:  "morreu o avô, leva-o para  a bancada, vamos fazer um chop suey de avô..."
POR FAVOR, PAREM PARA PENSAR...
O povo chinês  que sabemos que é capaz de cometer as maiores atrocidades - os outros também, mas não falemos disso agora )  tem um respeito enorme pelos seus mortos. Os cemitérios têm vistas espectaculares, são sagrados.
O principal motivo porque não há funerais de chineses em Portugal é porque os idosos vão morrer no seu pais, a família leva-os para que possam ficar junto aos antepassados. Na sua crença, ser enterrado longe de casa pode levar ao espírito dos seus familiares a deambular e não encontrar a paz, não encontrar o caminho para casa...
Por favor, coerência precisa-se!

01/08/2011

O elefante acorrentado



Não escrevi, mas estou tentada a tentar, passo a redundância...
Jorge Bucay

Deixa-me que te conte. Os contos que me ensinaram a viver
Lisboa, Pergaminho, 2004

O elefante acorrentado

— Não consigo — disse-lhe. — Não consigo!
— Tens a certeza? — perguntou-me ele.
— Tenho! O que eu mais gostava era de conseguir sentar-me à frente dela dizer-lhe o que sinto… Mas sei que não sou capaz.
O gordo sentou-se de pernas cruzadas à Buda, naqueles horríveis cadeirões azuis do seu consultório. Sorriu, fitou-me olhos nos olhos e, baixando a voz como fazia sempre que queria que o escutassem com atenção, disse-me:
— Deixa-me que te conte…
E sem esperar pela minha aprovação, o Jorge começou a contar.
Quando eu era pequeno, adorava o circo e aquilo de que mais gostava eram os animais. Cativava-me especialmente o elefante que, como vim a saber mais tarde, era também o animal preferido dos outros miúdos. Durante o espectáculo, a enorme criatura dava mostras de ter um peso, tamanho e força descomunais… Mas, depois da sua actuação e pouco antes de voltar para os bastidores, o elefante ficava sempre atado a uma pequena estaca cravada no solo, com uma corrente a agrilhoar-lhe uma das suas patas.
No entanto, a estaca não passava de um minúsculo pedaço de madeira enterrado uns centímetros no solo. E, embora a corrente fosse grossa e pesada, parecia-me óbvio que um ani mal capaz de arrancar uma árvore pela raiz, com toda a sua força, facilmente se conseguiria libertar da estaca e fugir.
O mistério continua a parecer-me evidente.
O que é que o prende, então?
Porque é que não foge?
Quando eu tinha cinco ou seis anos, ainda acreditava na sabedoria dos mais velhos. Um dia, decidi questionar um professor, um padre e um tio sobre o mistério do elefante. Um deles explicou-me que o elefante não fugia porque era amestrado.
Fiz, então, a pergunta óbvia:
— Se é amestrado, porque é que o acorrentam?
Não me lembro de ter recebido uma resposta coerente. Com o passar do tempo, esqueci o mistério do elefante da estaca e só o recordava quando me cruzava com outras pessoas que também já tinham feito essa pergunta.
Há uns anos, descobri que, felizmente para mim, alguém fora tão inteligente e sábio que encontrara a resposta:
O elefante do circo não foge porque esteve atado a uma estaca desde que era muito, muito pequeno.
Fechei os olhos e imaginei o indefeso elefante recém-nascido preso à estaca. Tenho a certeza de que naquela altura o elefantezinho puxou, esperneou e suou para se tentar libertar. E, apesar dos seus esforços, não conseguiu, porque aquela estaca era demasiado forte para ele.
Imaginei-o a adormecer, cansado, e a tentar novamente no dia seguinte, e no outro, e no outro… Até que, um dia, um dia terrível para a sua história, o animal aceitou a sua impotência e resignou-se com o seu destino.
Esse elefante enorme e poderoso, que vemos no circo, não foge porque, coitado, pensa que não é capaz de o fazer.
Tem gravada na memória a impotência que sentiu pouco depois de nascer.
E o pior é que nunca mais tornou a questionar seriamente essa recordação.
Jamais, jamais tentou pôr novamente à prova a sua força…
— E é assim a vida, Damião. Todos somos um pouco como o elefante do circo: seguimos pela vida fora atados a centenas de estacas que nos coarctam a liberdade.
Vivemos a pensar que «não somos capazes» de fazer montes de coisas, simplesmente porque uma vez, há muito tempo, quando éramos pequenos, tentámos e não conseguimos.
Fizemos, então, o mesmo que o elefante e gravámos na nossa memória esta mensagem: «Não consigo, não consigo e nunca hei-de conseguir.»
Crescemos com esta mensagem que impusemos a nós mesmos e, por isso, nunca mais tentámos libertar-nos da estaca.
Quando, por vezes, sentimos as grilhetas e as abanamos, olhamos de relance para a estaca e pensamos:
Não consigo e nunca hei-de conseguir.
 O Jorge fez uma longa pausa. Depois, aproximou-se, sentou-se no chão à minha frente e prosseguiu:
— É isto que se passa contigo, Damião. Vives condicionado pela lembrança de um Damião que já não existe, que não foi capaz.
»A única maneira de saberes se és capaz é tentando novamente, de corpo e alma… e com toda a forca do teu coração!

28/07/2011

Voluntariado: o que nos faz mover


Imagino que estejam cansados de ver pedidos de ajuda para animais. Cada história que trago aqui, é sempre mais uma de entre muitas.
Algumas pessoas acusam-me de pensar em demasia nos animais e esquecer os humanos. Não é verdade, se quisesse dava para fazer uma singela lista de outras insignificantes coisas que faço em prol dos humanos, nomeadamente idosos - muito pouco, eu sei, mas é  a minha parte - Mesmo para os que duvidam que o faço com esforço, a verdade é que muitas dessas ajudas são à custa de algumas renuncias e abdicações.
Lembro-me de em criança ver a minha mão, que tinha muitas dificuldades, ajudar os outros: um ovo para uma vizinha, um pouco de farinha de galinhas para as galinhas de outra; uma melancia para a Tia M. que nem reforma tinha...
Acho que nunca soube apreciar a minha verdadeiramente em vida, mas hoje, especialmente hoje que me apetecia muito deitar a cabeça no seu colo, penso como foi uma mulher boa. Vi-a fazer coisas que mais ninguém era capaz de fazer, sobretudo num meio pequeno. Um dia, já ela estava doente, descobri que lavava  a roupa de um senhor que tinha ficado viúvo. O homem não tinha falta de dinheiro, tinha era falta de família (sem mulher, filhos ou outros familiares que cuidassem dele, definhou na solidão). Num tom acusador disse-lhe:
- mãe, mas  a mãe agora lava  a roupa das pessoas, precisa disso?quanto é que ele lhe paga, já  agora?
 respondeu-me  a minha mãe:
- e eu quero lá dinheiro, coitado do homem, só basta a tristeza em que vive. E depois não te lembras da mulher dele que era tão boa para os animais e que te fazia saias com os restos dos tecidos...
Sim lembrei-me da inaicinha. Tinha mais de 30 gatos no quintal. A vida roubou-lhe a hipótese de ter filhos, dedicou o seu intenso amor aos animais.
Na verdade o que importa é que cada um aplique o ditado da minha avó "faz o bem e não olhes a quem"...
Mas voltando aos animais e ao voluntariado. As causas que movem cada um de nós para o voluntariado não são comparáveis, apenas o afecto que cada um deposita na sua causa pode ser comum.
Para vós que me leem, podem pensar "mais uma desgraça...", para mim que escrevo "quem sabe se alguém não consegue ajudar um animal...".
Para um voluntário que recebe em cada dia um vasto número de animais, todos eles vítimas de tudo e mais alguma coisa:  maus tratos, abandono, doença, fome, etc. etc., fica-se devastado por não pudermos ajudar mais.
Falta comida dinheiro, afecto, condições, e por vezes um lar é a solução para aqueles seres tristes e amedrontados.
Podemos sempre enterrar a cabeça na areia, mas acreditem que olhar para aqueles pedidos de socorro e não puder fazer nada, dói. A mim dói-me muito!
É uma incapacidade minha, esta dificuldade em desligar-me do sofrimento; por vezes corrói-me e interfere na minha vida pessoal.
Mas tenho muitos bónus, muitos mesmo. Este ano fiquei sem dinheiro para ir de férias, já tinha  abusado nas ajudas para além das despesas extras... Ontem, sem que tivesse falado no assunto, uma amiga ofereceu-me a sua casa na praia.
No outro dia, era preciso comprar comida para os animais, antes do fim do mês o dinheiro já não dava; sentia-me  impotente, revoltada com o dinheiro que se desperdiça,  desesperada com vontade de fugir. 
Olhando para o chão encontrei um porta-moedas com 40 euros. Tenho muita pena da pessoa que a perdeu, espero que não lhe fizessem falta para comer, mas foi directamente para ajudar animais. Sim, eu sei, sou uma pessoa de sorte.
Fiz mal, fiz bem? não sei, faço o que o coração me manda.
Se cada um dos vizinhos da blogoesfera desse um euro a uma associação, salvavam-se muitos animais. Mesmo que não concordemos, a esterilização dos animais é essencial.Por cada um animal que ajudamos aparecem 10 a precisar de mais ajuda. Não há donos responsáveis que cheguem.
Se hoje puder, doe um euro a uma qualquer associação, alimente ou adopte um animal...
já agora desculpem-me se abuso dos post sobre animais e com pedidos de ajuda.
Seja voluntário, faça a diferença!

Iniciei a minha tese com este texto porque acho que ele diz tudo:
"Um colibri voava ligeiro até o rio, colhia uma gotinha de água em seu biquinho, e ia pingá-la sobre aquele imenso fogaréu. Uma após outra, sem parar…
Até que, incontido, um dos bichos bradou:
”Seu pequeno pássaro estúpido! Você acha que essa gotinha vai apagar o fogo? Será que é tão imbecil? Voa embora, com essas asas que você tem! Salve-se! É o fim!!!”
Suavemente, o humilde pássaro respondeu:
”Eu estou fazendo a minha parte!"

 Sabia que a F.A.D.A. é um Fundo Alimentar Para Defesa Animal.
 Apenas se tem que comprometer a dar 2kg de ração por mês, ou desparasitantes, ou outra ajuda qualquer. Se se tornar" amiga", mensalmente uma voluntária marca um encontro e só tem que ir entregar os 2kg de comida. Acha muito? 
Esses alimentos serão depois distribuídos por canis e associações que estão a abarrotar .

17/07/2011

A vida tal como ela é...

Morreu a minha amiga Leonor. Não foi hoje, foi há quase um ano, mas hoje lembrei-me dela.
Foi talvez a mais grandiosa das minhas amigas, não pelos grandes feitos, mas pela sua simplicidade e profundidade de sentimentos. O seu sentimento de amizade  para com os amigos era tão autêntico como o amor.
Amou de uma forma tão intensa, profunda e ingénua que me assustava. Acreditava no amor acima de tudo, dizia-me muitas vezes "vivo com o coração, não percebo outra linguagem".
Discutíamos muitas vezes sobre a sua fé no homem que amava. Confesso que nunca dei nada por ele, como se costuma dizer, mas ela amava-o profundamente e acreditava que ele voltaria. Desde cedo me apercebi que aquilo era mais uma desvario da parte dele do que outra coisa, mas ela terminava sempre com a fase "O amor vence sempre".
Perdia a paciência com ela, abanava-a, mas ali estava ela, sempre irredutível, pronta para esperar eternamente por aquele homem (dar-lhe ia outro nome, mas por memória à Leonor, fico-me por aqui).
Espantava-me como é que uma mulher inteligente acreditava em "almas gémeas " e coisas afins, mas acreditava e eu ficava ao lado dela.
Houve um período em que julguei que não se aguentava, foi quando se apercebeu que ele não só não vinha como a tinha ignorado e afastado da sua vida. Pensei que se ia partir nessa altura, mas sobreviveu.
Tenho raiva das terapeutas por onde passou, ambas lhe faziam acreditar que o amor vence e que não devia desistir, diziam-lhe o que ela queria ouvir... Houve momentos em que me parecia ser a única a ter os olhos bem abertos...
Fechou-se no  seu mundo e procurou cicatrizar as feridas do coração; fechou-se para um novo amor. 
Lembro-me de uma das nossas ultimas discussões "mas tu vives com fantasmas, é isso que queres para a tua vida?".
- Não são fantasmas e se não me envolvo com outra pessoa é que, de coração, não seria capaz de fazê-lo. É por mim, respondeu-me.
Olhei para ela atónita. Passou tanto tempo apaixonada por alguém que não a merecia... 
Não sei se esse homem chegou a saber não apenas o tamanho do amor que ela lhe tinha como a pureza e profundidade - se existe amor incondicional, este era um deles; desculpava-o sempre e, mesmo quando já me negava amá-lo sei que não era verdade, lá no fundo, o seu olhar brilhava ao ouvir o seu nome.
Quebrava mais um pouco por ele não ser capaz de lhe enviar um e-mail nos momentos de perdas e de alegria. Assim, de coração ferido, dizia-me: quem me dera ser como ele, tão coerente... e eu que não gostava dele, mas só para não a magoar mais reconhecia-lhe essa característica, mas lá no fundo pensava "ele está-se mas é borrifando para ti". 
Estava sempre disponível para os amigos, queria abraçar o mundo e ajudar os mais frágeis. 
Teria muito que contar sobre a Leonor e, quanto mais contasse, mais aspectos positivos teria que escrever, mostrando o quanto ela não era "deste mundo".
Partiu sem que a vida lhe realizasse o sonho de viver o seu amor.
Adorava ouvir o concerto de Aranguez, dizia que alguém que ouvisse essa música não poderia ficar com o coração igual"; gostava de papoilas, de mar e de luz.
Os seus sentimentos eram tão sinceros e profundos que por vezes me parecia uma criança. 
O amor não venceu, porque na vida, tal como ela é, nem sempre o amor vence!
AEDH DESEJA OS TECIDOS DOS CÉUS
Fossem meus os tecidos bordados dos céus,
Ornamentados com luz dourada e prateada,
Os azuis e negros e pálidos tecidos
Da noite, da luz e da meia-luz,
Os estenderia sob os teus pés.
Mas eu, sendo pobre, tenho apenas os meus sonhos.
Eu estendi meus sonhos sob os teus pés
Caminha suavemente, pois caminhas sobre meus sonhos.William Butler Yeats


10/07/2011

Em tempo de estio...


Para começar levemente...

Nos Bosques, Perdido (Pablo Neruda)
Nos bosques, perdido, cortei um ramo escuro
E aos labios, sedento, levante seu sussurro:
era talvez a voz da chuva chorando,
um sino quebrado ou um coração partido
Algo que de tão longe me parecia
oculto gravemente, coberto pela terra,
um gruto ensurdecido por imensos outonos,
pela entreaberta e úmida treva das folhas.
Porém ali, despertando dos sonhos do bosque,
o ramo de avelã cantou sob minha boca
E seu odor errante subiu para o meu entendimento
como se, repentinamente, estivessem me procurando as raízes
que abandonei, a terra perdida com minha infância,
e parei ferido pelo aroma errante.
Não o quero, amada.
Para que nada nos prenda
para que não nos una nada.
Nem a palavra que perfumou tua boca
nem o que não disseram as palavras.
Nem a festa de amor que não tivemos
nem teus soluços junto à janela...

13/06/2011

Perfil de um ser eleito...



Ainda muito jovem era um ser que elegia. Entre as mil coisas que poderia ter sido, fora se escolhendo. Num trabalho para o qual usava lentes, enxergando o que podia e apalpando com as mãos úmidas o que não via, o ser fora escolhendo e por isso indiretamente se escolhia. Aos poucos se juntara para ser. Separava, separava. Em relativa liberdade, se se descontasse o furtivo determinismo que agira discreto sem se dar um nome. Descontado esse furtivo determinismo, o ser se escolhia livre. Guiava-o a vontade de descobrir o próprio determinismo, e segui-lo com esforço, pois a linha verdadeira é muito apagada, as outras são mais visíveis. Separava, separava. 
Separava o chamado joio do trigo, e o melhor, o melhor se comia. Às vezes comia o pior. A escolha difícil era comer o pior. Separava perigos do grande perigo, e era com o grande perigo que o ser, embora com medo, ficava. Só para pensar com susto o peso das coisas. Afastava de si as verdades menores que terminou não chegando a conhecer. Queria as verdades difíceis de suportar. Por ignorar as verdades menores, o ser parecia rodeado de mistério; por ser ignorante, era um ser misterioso. Tornara-se uma mistura do que pensavam dele e do que ele realmente era: um sabido ignorante; um sábio ingênuo; um esquecido que muito bem sabia de outras coisas; um sonho honesto; um pensativo distraído; um nostálgico sobre o que deixara de saber; um saudoso pelo que definitivamente, ao escolher, perdera; um corajoso por já ser tarde demais e já se ter escolhido. Tudo isso, contraditoriamente, deu ao ser uma alegria discreta e sadia de camponês que só lida com o básico. E tudo isso lhe deu a austeridade involuntária que todo trabalho vital dá. Escolha e ajustamento não tinham hora certa de começar nem acabar, duravam mesmo o tempo de uma vida.
Tudo isso, contraditoriamente, foi dando ao ser a alegria profunda que precisa se manifestar, expor-se e se comunicar. Passou a dar-se através da pintura. Nessa comunicação o ser era ajudado pelo seu dom inato de gostar. E isso nem juntara nem escolhera, era um dom mesmo. Gostava da profunda alegria dos outros, pelo dom inato descobrira a alegria dos outros. Por dom, era também capaz de descobrir a solidão que os outros tinham. E também por dom, sabia profundamente brincar o jogo da vida, transformando-a em cores e formas. Sem mesmo sentir que usava o seu dom, o ser se manifestava: dava sem perceber que a isso chamavam amor. O dom era como falta de camisa do homem feliz: como o ser sentia muito pobre e não tinha o que dar, o ser se dava. Dava-se em silêncio, e dava o que juntara de si, assim como quem chama os outros para verem também.
Pouco a pouco o equívoco passou a rodear o ser: os outros olhavam o ser como uma estátua, como um retrato. Um retrato muito rico. Não compreenderam que para o ser, ter se reunido, fora do trabalho de despojamento e não de riqueza. Por equívoco, o ser era festejado. Mas sentir-se amado seria reconhecer-se a si mesmo no amor recebido, e aquele ser era amado como se fosse um outro ser. O ser verteu as lágrimas de uma estátua que de noite na praça chora sem se mexer. Nunca o escuro fora maior na praça. Até que de novo amanhecia e o ser renascia. O ritmo da terra era tão generoso que amanhecia. Mas de noite, quando chegava a noite, de novo escurecia. A praça de novo crescia em solidão. De medo, os que haviam elegido dormiam: medo porque pensavam que teriam de morar na solidão da praça? Não sabiam que a solidão da praça fora apenas o lugar de trabalho do ser. Mas que ele também se sentia só. O ser prepara-se a vida toda para ser apto ao lado da força da praça. É verdade que o ser, ao se sentir pronto assim como quem se banha com óleos e perfumes, notou que não lhe havia sobrado tempo para existir como os outros: era diferente sem querer. Alguma coisa falhara, porque, quando o ser se via no retrato que os outros haviam tirado, espantava-se humilde diante do que haviam feito dele. Haviam feito dele nada mais, nada menos, que um ser eleito. Isto é, haviam-no sitiado. Como desfazer o equívoco? Por simplificação e economia de tempo, haviam fotografado o ser numa única pose e agora não se referiam a ele, e sim à fotografia. Bastava abrir a gaveta para tirar de dentro o retrato. Qualquer um conseguia uma cópia que custava, aliás, barato.
Quando diziam para o ser: eu te amo, o ser se perturbava porque nem ao menos podia agradecer: e eu? por que não a mim também? por que só ao meu retrato? Mas não reclamava pois sabia que os outros não erravam por maldade. O ser às vezes, por uma questão de solidão, tentava imitar a fotografia, o que no entanto terminou por torná-la mais falsamente autêntica. Às vezes ele se confundia todo: não aprendia a copiar o retrato, e esquecera-se de como era sem o retrato. De modo que, como se diz do palhaço que sempre ri, o ser às vezes, por assim dizer, chorava sob a sua caiada pintura de bobo da corte.
Então ele tentou um trabalho subterrâneo de destruição da fotografia: fazia ou dizia coisas tão opostas à fotografia que esta se eriçava na gaveta. Sua esperança era tornar-se mais vivo que a fotografia. Mas o que aconteceu? Aconteceu que tudo o que o ser fazia só ia mesmo era retocar o retrato, enfeitá-lo.
E assim foi indo, até que, profundamente desiludido nas legítimas aspirações, o ser morria de solidão. Mas terminou saindo da estátua da praça, com grande esforço, levando várias quedas, aprendendo a passear sozinho. E, como se diz, nunca a terra lhe pareceu tão bela. Reconheceu que aquela era exatamente a terra para a qual se preparara: não errara, pois, o mapa do tesouro tinha as indicações certas. Passeando, o ser tocava em todas as coisas e, mesmo solitário, sorria. O ser aprendera a sorrir sozinho.


(Clarice Lispector)