04/04/2011

Algodão doce

Durante muito tempo só tinha acesso a algodão-doce quando ia à feira de Maio ou de Agosto.
Como qualquer criança ansiava por estes momentos e por isso juntava todos os tostões para perfazer 2$50. Quando lá chegava era a primeira coisa que queria comprar, mas bastante refreada pelo meu pai ou pela minha avó. A aquisição do algodão doce tinha um senão, era sempre dividido com a minha irmã e ambas queríamos segurar no dito, como forma de demonstrar o sentido de posse.
Da barraca do Algodão doce
saia num som roufenho a voz de Joel Branco "O Mundo é uma bola de algodão que está na nossa mão fazer feliz...". O percurso até esta parte da feira era enorme. Primeiro havia que ver tudo o que o meu pai queria...
Um dia, por qualquer motivo, a minha irmã não foi à feira e, eu consegui um algodão-doce só para mim. lembro-me do cheiro que emanava da máquina, da sensação de espera enquanto a mão do feirante rodava o pau em torno do doce algodão que saia da máquina, até tornar o meu desejo realidade.
Estava tão feliz que nem cabia em mim, saboreava e admirava o meu algodãoe cor-de-rosa sentindo-me uma princesa; eis quando passa um rapaz da feira e deita a mão ao meu algodão-doce, deixando-me com um niquinho agarrado ao pau.
Fiquei em estado de choque, nem conseguia chorar, olhava para o que sobrava e um misto de injustiça apoderou-se de mim. O meu pai ainda comentou então não comes isso? e eu que adorava o petisco senti um misto de nojo por aquela mão que por ali passou e uma sensação de devassidão por o roubo de algo que me era tão desejado.
Só voltei a comer algodão doce, já deixava a adolescência, num dia que fui à feira Popular de Lisboa.
Mais do que a sensação de roubo foi a sensação de alguém estragar o "meu momento", de devassar esse momento sagrado. Voltei a senti-lo anos mais tarde por motivos muito diferentes.
Não voltei a comer algodão doce, não voltei a acreditar no amor.
Ainda sabemos cantar
Eugénio de Andrade

Ainda sabemos cantar, 
só a nossa voz é que mudou: 
somos agora mais lentos, 
mais amargos, 
e um novo gesto é igual ao que passou. 

Um verso já não é a maravilha, 

um corpo já não é a plenitude

6 comentários:

JPD disse...

O algodão doce sempre foi muito apelativo para mim.
Fiquei deslumbrado qundo o vi pela primeira vez.
Quando experimentei achei excessiva a saturação de açúcar.
Desanimei.
Belo texto, porque revela uma nostalgia de criança que é sempre salutar.
Bjs

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

Não sei explicar a razão, mas nunca gostei de algodão doce...

Há.dias.assim disse...

JPD,
Muito doce, mas lembro-me de como o achava bom!

Há.dias.assim disse...

Carlos,
nem sempre há explicação para os factos...

Lis disse...

Adorava ver a maquininha de algodão doce! assim como uma nuvem que se desmancha na boca.
Penso que naão há criança que não se encante!
ainda hoje me pego a olhar embevecida essa doçura colorida .

abraços

Cristina Torrão disse...

Também eu ficava deslumbrada com o algodão doce. Mas, em criança, não tive direito a prová-lo, nem sequer a meias com o meu irmão. A minha mãe dizia sempre que não prestava, que era só açúcar. E não nos comprava :(

Ela tinha razão. Quando provei a primeira vez, já era grande, tinha dinheiro no bolso e liberdade para, finalmente, comprar o tão desejado algodão doce.

Fiquei desiludida. Mas talvez não o ficasse, se o tivesse provado em criança. A minha mãe tinha razão, sim. Mas ainda hoje, quando vejo algodão doce, ou leio textos como este, tenho a sensação que ela me roubou um momento mágico da infância...