28/07/2011

Voluntariado: o que nos faz mover


Imagino que estejam cansados de ver pedidos de ajuda para animais. Cada história que trago aqui, é sempre mais uma de entre muitas.
Algumas pessoas acusam-me de pensar em demasia nos animais e esquecer os humanos. Não é verdade, se quisesse dava para fazer uma singela lista de outras insignificantes coisas que faço em prol dos humanos, nomeadamente idosos - muito pouco, eu sei, mas é  a minha parte - Mesmo para os que duvidam que o faço com esforço, a verdade é que muitas dessas ajudas são à custa de algumas renuncias e abdicações.
Lembro-me de em criança ver a minha mão, que tinha muitas dificuldades, ajudar os outros: um ovo para uma vizinha, um pouco de farinha de galinhas para as galinhas de outra; uma melancia para a Tia M. que nem reforma tinha...
Acho que nunca soube apreciar a minha verdadeiramente em vida, mas hoje, especialmente hoje que me apetecia muito deitar a cabeça no seu colo, penso como foi uma mulher boa. Vi-a fazer coisas que mais ninguém era capaz de fazer, sobretudo num meio pequeno. Um dia, já ela estava doente, descobri que lavava  a roupa de um senhor que tinha ficado viúvo. O homem não tinha falta de dinheiro, tinha era falta de família (sem mulher, filhos ou outros familiares que cuidassem dele, definhou na solidão). Num tom acusador disse-lhe:
- mãe, mas  a mãe agora lava  a roupa das pessoas, precisa disso?quanto é que ele lhe paga, já  agora?
 respondeu-me  a minha mãe:
- e eu quero lá dinheiro, coitado do homem, só basta a tristeza em que vive. E depois não te lembras da mulher dele que era tão boa para os animais e que te fazia saias com os restos dos tecidos...
Sim lembrei-me da inaicinha. Tinha mais de 30 gatos no quintal. A vida roubou-lhe a hipótese de ter filhos, dedicou o seu intenso amor aos animais.
Na verdade o que importa é que cada um aplique o ditado da minha avó "faz o bem e não olhes a quem"...
Mas voltando aos animais e ao voluntariado. As causas que movem cada um de nós para o voluntariado não são comparáveis, apenas o afecto que cada um deposita na sua causa pode ser comum.
Para vós que me leem, podem pensar "mais uma desgraça...", para mim que escrevo "quem sabe se alguém não consegue ajudar um animal...".
Para um voluntário que recebe em cada dia um vasto número de animais, todos eles vítimas de tudo e mais alguma coisa:  maus tratos, abandono, doença, fome, etc. etc., fica-se devastado por não pudermos ajudar mais.
Falta comida dinheiro, afecto, condições, e por vezes um lar é a solução para aqueles seres tristes e amedrontados.
Podemos sempre enterrar a cabeça na areia, mas acreditem que olhar para aqueles pedidos de socorro e não puder fazer nada, dói. A mim dói-me muito!
É uma incapacidade minha, esta dificuldade em desligar-me do sofrimento; por vezes corrói-me e interfere na minha vida pessoal.
Mas tenho muitos bónus, muitos mesmo. Este ano fiquei sem dinheiro para ir de férias, já tinha  abusado nas ajudas para além das despesas extras... Ontem, sem que tivesse falado no assunto, uma amiga ofereceu-me a sua casa na praia.
No outro dia, era preciso comprar comida para os animais, antes do fim do mês o dinheiro já não dava; sentia-me  impotente, revoltada com o dinheiro que se desperdiça,  desesperada com vontade de fugir. 
Olhando para o chão encontrei um porta-moedas com 40 euros. Tenho muita pena da pessoa que a perdeu, espero que não lhe fizessem falta para comer, mas foi directamente para ajudar animais. Sim, eu sei, sou uma pessoa de sorte.
Fiz mal, fiz bem? não sei, faço o que o coração me manda.
Se cada um dos vizinhos da blogoesfera desse um euro a uma associação, salvavam-se muitos animais. Mesmo que não concordemos, a esterilização dos animais é essencial.Por cada um animal que ajudamos aparecem 10 a precisar de mais ajuda. Não há donos responsáveis que cheguem.
Se hoje puder, doe um euro a uma qualquer associação, alimente ou adopte um animal...
já agora desculpem-me se abuso dos post sobre animais e com pedidos de ajuda.
Seja voluntário, faça a diferença!

Iniciei a minha tese com este texto porque acho que ele diz tudo:
"Um colibri voava ligeiro até o rio, colhia uma gotinha de água em seu biquinho, e ia pingá-la sobre aquele imenso fogaréu. Uma após outra, sem parar…
Até que, incontido, um dos bichos bradou:
”Seu pequeno pássaro estúpido! Você acha que essa gotinha vai apagar o fogo? Será que é tão imbecil? Voa embora, com essas asas que você tem! Salve-se! É o fim!!!”
Suavemente, o humilde pássaro respondeu:
”Eu estou fazendo a minha parte!"

 Sabia que a F.A.D.A. é um Fundo Alimentar Para Defesa Animal.
 Apenas se tem que comprometer a dar 2kg de ração por mês, ou desparasitantes, ou outra ajuda qualquer. Se se tornar" amiga", mensalmente uma voluntária marca um encontro e só tem que ir entregar os 2kg de comida. Acha muito? 
Esses alimentos serão depois distribuídos por canis e associações que estão a abarrotar .

18/07/2011

Sem palavras!

Lindo, lindo...
 

17/07/2011

A vida tal como ela é...

Morreu a minha amiga Leonor. Não foi hoje, foi há quase um ano, mas hoje lembrei-me dela.
Foi talvez a mais grandiosa das minhas amigas, não pelos grandes feitos, mas pela sua simplicidade e profundidade de sentimentos. O seu sentimento de amizade  para com os amigos era tão autêntico como o amor.
Amou de uma forma tão intensa, profunda e ingénua que me assustava. Acreditava no amor acima de tudo, dizia-me muitas vezes "vivo com o coração, não percebo outra linguagem".
Discutíamos muitas vezes sobre a sua fé no homem que amava. Confesso que nunca dei nada por ele, como se costuma dizer, mas ela amava-o profundamente e acreditava que ele voltaria. Desde cedo me apercebi que aquilo era mais uma desvario da parte dele do que outra coisa, mas ela terminava sempre com a fase "O amor vence sempre".
Perdia a paciência com ela, abanava-a, mas ali estava ela, sempre irredutível, pronta para esperar eternamente por aquele homem (dar-lhe ia outro nome, mas por memória à Leonor, fico-me por aqui).
Espantava-me como é que uma mulher inteligente acreditava em "almas gémeas " e coisas afins, mas acreditava e eu ficava ao lado dela.
Houve um período em que julguei que não se aguentava, foi quando se apercebeu que ele não só não vinha como a tinha ignorado e afastado da sua vida. Pensei que se ia partir nessa altura, mas sobreviveu.
Tenho raiva das terapeutas por onde passou, ambas lhe faziam acreditar que o amor vence e que não devia desistir, diziam-lhe o que ela queria ouvir... Houve momentos em que me parecia ser a única a ter os olhos bem abertos...
Fechou-se no  seu mundo e procurou cicatrizar as feridas do coração; fechou-se para um novo amor. 
Lembro-me de uma das nossas ultimas discussões "mas tu vives com fantasmas, é isso que queres para a tua vida?".
- Não são fantasmas e se não me envolvo com outra pessoa é que, de coração, não seria capaz de fazê-lo. É por mim, respondeu-me.
Olhei para ela atónita. Passou tanto tempo apaixonada por alguém que não a merecia... 
Não sei se esse homem chegou a saber não apenas o tamanho do amor que ela lhe tinha como a pureza e profundidade - se existe amor incondicional, este era um deles; desculpava-o sempre e, mesmo quando já me negava amá-lo sei que não era verdade, lá no fundo, o seu olhar brilhava ao ouvir o seu nome.
Quebrava mais um pouco por ele não ser capaz de lhe enviar um e-mail nos momentos de perdas e de alegria. Assim, de coração ferido, dizia-me: quem me dera ser como ele, tão coerente... e eu que não gostava dele, mas só para não a magoar mais reconhecia-lhe essa característica, mas lá no fundo pensava "ele está-se mas é borrifando para ti". 
Estava sempre disponível para os amigos, queria abraçar o mundo e ajudar os mais frágeis. 
Teria muito que contar sobre a Leonor e, quanto mais contasse, mais aspectos positivos teria que escrever, mostrando o quanto ela não era "deste mundo".
Partiu sem que a vida lhe realizasse o sonho de viver o seu amor.
Adorava ouvir o concerto de Aranguez, dizia que alguém que ouvisse essa música não poderia ficar com o coração igual"; gostava de papoilas, de mar e de luz.
Os seus sentimentos eram tão sinceros e profundos que por vezes me parecia uma criança. 
O amor não venceu, porque na vida, tal como ela é, nem sempre o amor vence!
AEDH DESEJA OS TECIDOS DOS CÉUS
Fossem meus os tecidos bordados dos céus,
Ornamentados com luz dourada e prateada,
Os azuis e negros e pálidos tecidos
Da noite, da luz e da meia-luz,
Os estenderia sob os teus pés.
Mas eu, sendo pobre, tenho apenas os meus sonhos.
Eu estendi meus sonhos sob os teus pés
Caminha suavemente, pois caminhas sobre meus sonhos.William Butler Yeats


10/07/2011

Em tempo de estio...


Para começar levemente...

Nos Bosques, Perdido (Pablo Neruda)
Nos bosques, perdido, cortei um ramo escuro
E aos labios, sedento, levante seu sussurro:
era talvez a voz da chuva chorando,
um sino quebrado ou um coração partido
Algo que de tão longe me parecia
oculto gravemente, coberto pela terra,
um gruto ensurdecido por imensos outonos,
pela entreaberta e úmida treva das folhas.
Porém ali, despertando dos sonhos do bosque,
o ramo de avelã cantou sob minha boca
E seu odor errante subiu para o meu entendimento
como se, repentinamente, estivessem me procurando as raízes
que abandonei, a terra perdida com minha infância,
e parei ferido pelo aroma errante.
Não o quero, amada.
Para que nada nos prenda
para que não nos una nada.
Nem a palavra que perfumou tua boca
nem o que não disseram as palavras.
Nem a festa de amor que não tivemos
nem teus soluços junto à janela...

13/06/2011

Perfil de um ser eleito...



Ainda muito jovem era um ser que elegia. Entre as mil coisas que poderia ter sido, fora se escolhendo. Num trabalho para o qual usava lentes, enxergando o que podia e apalpando com as mãos úmidas o que não via, o ser fora escolhendo e por isso indiretamente se escolhia. Aos poucos se juntara para ser. Separava, separava. Em relativa liberdade, se se descontasse o furtivo determinismo que agira discreto sem se dar um nome. Descontado esse furtivo determinismo, o ser se escolhia livre. Guiava-o a vontade de descobrir o próprio determinismo, e segui-lo com esforço, pois a linha verdadeira é muito apagada, as outras são mais visíveis. Separava, separava. 
Separava o chamado joio do trigo, e o melhor, o melhor se comia. Às vezes comia o pior. A escolha difícil era comer o pior. Separava perigos do grande perigo, e era com o grande perigo que o ser, embora com medo, ficava. Só para pensar com susto o peso das coisas. Afastava de si as verdades menores que terminou não chegando a conhecer. Queria as verdades difíceis de suportar. Por ignorar as verdades menores, o ser parecia rodeado de mistério; por ser ignorante, era um ser misterioso. Tornara-se uma mistura do que pensavam dele e do que ele realmente era: um sabido ignorante; um sábio ingênuo; um esquecido que muito bem sabia de outras coisas; um sonho honesto; um pensativo distraído; um nostálgico sobre o que deixara de saber; um saudoso pelo que definitivamente, ao escolher, perdera; um corajoso por já ser tarde demais e já se ter escolhido. Tudo isso, contraditoriamente, deu ao ser uma alegria discreta e sadia de camponês que só lida com o básico. E tudo isso lhe deu a austeridade involuntária que todo trabalho vital dá. Escolha e ajustamento não tinham hora certa de começar nem acabar, duravam mesmo o tempo de uma vida.
Tudo isso, contraditoriamente, foi dando ao ser a alegria profunda que precisa se manifestar, expor-se e se comunicar. Passou a dar-se através da pintura. Nessa comunicação o ser era ajudado pelo seu dom inato de gostar. E isso nem juntara nem escolhera, era um dom mesmo. Gostava da profunda alegria dos outros, pelo dom inato descobrira a alegria dos outros. Por dom, era também capaz de descobrir a solidão que os outros tinham. E também por dom, sabia profundamente brincar o jogo da vida, transformando-a em cores e formas. Sem mesmo sentir que usava o seu dom, o ser se manifestava: dava sem perceber que a isso chamavam amor. O dom era como falta de camisa do homem feliz: como o ser sentia muito pobre e não tinha o que dar, o ser se dava. Dava-se em silêncio, e dava o que juntara de si, assim como quem chama os outros para verem também.
Pouco a pouco o equívoco passou a rodear o ser: os outros olhavam o ser como uma estátua, como um retrato. Um retrato muito rico. Não compreenderam que para o ser, ter se reunido, fora do trabalho de despojamento e não de riqueza. Por equívoco, o ser era festejado. Mas sentir-se amado seria reconhecer-se a si mesmo no amor recebido, e aquele ser era amado como se fosse um outro ser. O ser verteu as lágrimas de uma estátua que de noite na praça chora sem se mexer. Nunca o escuro fora maior na praça. Até que de novo amanhecia e o ser renascia. O ritmo da terra era tão generoso que amanhecia. Mas de noite, quando chegava a noite, de novo escurecia. A praça de novo crescia em solidão. De medo, os que haviam elegido dormiam: medo porque pensavam que teriam de morar na solidão da praça? Não sabiam que a solidão da praça fora apenas o lugar de trabalho do ser. Mas que ele também se sentia só. O ser prepara-se a vida toda para ser apto ao lado da força da praça. É verdade que o ser, ao se sentir pronto assim como quem se banha com óleos e perfumes, notou que não lhe havia sobrado tempo para existir como os outros: era diferente sem querer. Alguma coisa falhara, porque, quando o ser se via no retrato que os outros haviam tirado, espantava-se humilde diante do que haviam feito dele. Haviam feito dele nada mais, nada menos, que um ser eleito. Isto é, haviam-no sitiado. Como desfazer o equívoco? Por simplificação e economia de tempo, haviam fotografado o ser numa única pose e agora não se referiam a ele, e sim à fotografia. Bastava abrir a gaveta para tirar de dentro o retrato. Qualquer um conseguia uma cópia que custava, aliás, barato.
Quando diziam para o ser: eu te amo, o ser se perturbava porque nem ao menos podia agradecer: e eu? por que não a mim também? por que só ao meu retrato? Mas não reclamava pois sabia que os outros não erravam por maldade. O ser às vezes, por uma questão de solidão, tentava imitar a fotografia, o que no entanto terminou por torná-la mais falsamente autêntica. Às vezes ele se confundia todo: não aprendia a copiar o retrato, e esquecera-se de como era sem o retrato. De modo que, como se diz do palhaço que sempre ri, o ser às vezes, por assim dizer, chorava sob a sua caiada pintura de bobo da corte.
Então ele tentou um trabalho subterrâneo de destruição da fotografia: fazia ou dizia coisas tão opostas à fotografia que esta se eriçava na gaveta. Sua esperança era tornar-se mais vivo que a fotografia. Mas o que aconteceu? Aconteceu que tudo o que o ser fazia só ia mesmo era retocar o retrato, enfeitá-lo.
E assim foi indo, até que, profundamente desiludido nas legítimas aspirações, o ser morria de solidão. Mas terminou saindo da estátua da praça, com grande esforço, levando várias quedas, aprendendo a passear sozinho. E, como se diz, nunca a terra lhe pareceu tão bela. Reconheceu que aquela era exatamente a terra para a qual se preparara: não errara, pois, o mapa do tesouro tinha as indicações certas. Passeando, o ser tocava em todas as coisas e, mesmo solitário, sorria. O ser aprendera a sorrir sozinho.


(Clarice Lispector)

10/06/2011

uma questão de dignidade...




A Gulbenkian tem num dos seus lagos, junto ao Museu de Arte Moderna,  um peixe dentro de um aquário ao sol.
Não o peixe não está livremente pelo "grande" lago, está mesmo preso dentro de um vidro.
A resposta da gulbenkien é que o biólogo que assiste o artista acha que não há problema para o animal.
Estive lá na 3ª feira e o peixe continua ao sol, fechado no aquário e sem a dita tela que a Fundação diz colocar.
É vergonhoso que um pseudo artista use um ser vivo para falar em arte.


Podem consultar a notícia na página da Fundação Gulbenkian. O Alerta foi deixado no dia 25 de Maio.
http://www.facebook.com/fundacaocaloustegulbenkian


05/06/2011

sobre o tempo...



E porque ando sem tempo...

Tudo tem o seu tempo determinado e há tempo para todo propósito debaixo do céu: há tempo de nascer e tempo de morrer; tempo de chorar e tempo de rir; tempo de abraçar e tempo de afastar-se; tempo de amar e tempo de aborrecer; tempo de guerra e tempo de paz."(Eclesiastes)

Há tempos em nossa vida que contam de forma diferente.
Há semanas que duraram anos, como há anos que não contaram um dia.
Há paixões que foram eternas, como há amigos que passaram céleres, apesar do calendário nos mostrar que ficaram por anos em nossas agendas.
Há amores não realizados que deixaram olhares de meses, e beijos não dados que até hoje esperam o desfecho.
Há trabalhos que nos tomaram décadas de nosso tempo na Terra, mas que nossa memória insiste em contá-los como semanas.
E há casamentos que, ao olhar para trás, mal preenchem os feriados da folhinha.
Há tristezas que nos paralisaram por meses, mas que hoje, passados os dias difíceis, mal guardamos lembrança de horas.
Há eventos que marcaram, e que duram para sempre: o nascimento do filho, a morte da avó, a viagem inesquecível, o êxtase do sonho realizado.
Estes têm a duração que nos ensina o significado da palavra “eternidade”.
Já viajei para a mesma cidade uma centena de vezes, e na maioria das vezes o tempo transcorrido foi o mesmo.
Mas conforme meu espírito, houve viagem que não teve fim até hoje, como há percurso que nem me lembro de ter feito, tão feliz estava eu na ocasião.
O relógio do coração, hoje descubro, bate noutra freqüência daquele que carrego no pulso.
Marca um tempo diferente, de emoções que perduram e que mostram o verdadeiro tempo da gente.
Por este relógio, velhice é coisa de quem não conseguiu esticar o tempo que temos no mundo.
É olhar as rugas e não perceber a maturidade.
É pensar antes naquilo que não foi feito, ao invés de se alegrar e sorrir com as lembranças do que viveu.
Pense nisso. E consulte sempre o relógio do coração: ele lhe mostrará o verdadeiro tempo do mundo.

O tempo
“A vida é o dever que nós trouxemos para fazer em casa.
Quando se vê, já são seis horas!
Quando de vê, já é sexta-feira!
Quando se vê, já é Natal...
Quando se vê, já terminou o ano...
Quando se vê perdemos o amor da nossa vida.
Quando se vê passaram 50 anos!
Agora é tarde demais para ser reprovado...
Se me fosse dado um dia, outra oportunidade, eu nem olhava o relógio.
Seguiria sempre em frente e iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas...
Seguraria o amor que está à minha frente e diria que eu o amo...
E tem mais: não deixe de fazer algo de que gosta devido à falta de tempo.
Não deixe de ter pessoas ao seu lado por puro medo de ser feliz.
A única falta que terá será a desse tempo que, infelizmente, nunca mais voltará.”
(Mario Quintana)

25/05/2011

alta costura


No tecido da história familiar, as mãos de minha mãe reforçaram as costuras para nos protegerem de qualquer empurrão da vida …
As mãos de minha mãe uniram com um alinhavo as partes do molde sem esquecer que cada uma é diferente da outra e que juntas fazem um todo  como a família …
As mãos de minha mãe fizeram bainhas para que pudéssemos crescer para que não nos ficassem curtos os ideais …
As mãos de minha mãe remendaram os estragos para voltarmos a usar o coração sem fiapos de ressentimentos …
As mãos de minha mãe juntaram retalhos para que tivéssemos uma manta única que nos cobrisse …
As mãos de minha mãe seguraram presilhas e botões para que estivéssemos unidos e não perdêssemos a esperança …
As mãos de minha mãe aplicaram elásticos para nos podermos adaptar folgadamente às mudanças exigidas pelos anos …
As mãos de minha mãe bordaram maravilhas para que a vida nos surpreendesse com as suas contínuas dádivas de beleza …
As mãos de minha mãe coseram bolsos para guardar neles as moedas valiosas das melhores recordações e da minha identidade …
As mãos de minha mãe, quando estavam quietas, zelavam os meus sonhos para que alimentassem os meus ideais com o pó das suas estrelas …
As mãos de minha mãe seguraram-me com linhas mágicas, quando entrava na vida … para começar a vesti-la!
As mãos de minha mãe nunca abandonaram o seu trabalho. E sei muito bem que hoje, onde estiverem, fazem orações por mim …
E eu … 
Eu beijo-as como se recebesse bênçãos!

Recebi por e-mail, desconheço o autor

22/05/2011

Divagações sem interesse...

Perdoem-me por andar arredia.
Arredia de muita coisa e de muita gente. Tenho tentado manter-me mais próxima de mim.

A campanha eleitoral é asfixiante; as perspectivas de governo são deveras assustadoras - seja qual for o candidato que nos saia na rifa -, o FMI afinal é o bonzinho e até por cá podia ficar a governar, mandávamos a UE embora e até lhe oferecíamos o Sócrates, o Passos Coelho, o Portas e ainda como cereja o Cavaco Silva. Era o paraíso, só os portugueses e o FMI.
Claro que isto foi um à parte, não existem contos de fadas nem duendes ou mágicos; por isso a realidade  - a dura realidade - entrará a doer depois de 5 de Junho.
Tenho tentado ver alguns filmes, mas deixei passar o Indie, por inércia, por cansaço, por trabalho, principalmente por falta de paixão. Sou das que acredita que tudo o que se faz na vida deve ser feito com o coração, com vontade, para além do "vamos a um cineminha?".
Passou o Indie, mas tenho-me dedicado a aproveitar as esplanadas de Lisboa, belas, algumas. A da Graça, a do Adamastor e outras mais simples, mesmo ao pé de casa. Esplanadas, bom tempo e amigos são ingredientes para uma relação perfeita, ao fim do dia, depois do trabalho e antes de se enfrentar o trânsito de regresso a casa.
Ah! na 4ª feira fui ver o Tulpan, um filme de Sergei Dvortsevoy, divinal!
O Director do FMI foi apanhado, é conspiração? haverá uma teoria da teoria da conspiração? Pode ser, mas faz-me pensar na minha filosofia: "tarde ou cedo a vida traz a factura". Por outro questiono-me sempre sobre esta matéria de que somos feitos, se a teoria da conspiração for verdade, o que se faz só para se afastar um adversário político... (Não que tenha muita pena do senhor, tenho mais da sua família).
De interesse pouco tenho feito, tirando os passeios pela Arrábida e a pintura da casa, nada comparáveis mas igualmente  importantes para mim.
Apenas a realçar que no outro dia encontrei a Mariana que achava que eu lhe devia responder a uma pergunta. Dizia-me "mero interesse sociológico" (?!)
            Mariana:  Diz-me uma coisa que sintas que valeu a pena na tua vida.
assim de repente.. foram muitas, são quase 50 anos, anos que se traduzem em bons e maus momentos; e porque a vida não é só a duas cores poderei dizer que houve bons momentos, muitos, outros insignificantes, e outros muito maus. Sobre esses não vou sequer lembrar. Somos um produto do passado, ponto final!

Mariana: Ok! mas responde lá à pergunta
Há no entanto, algo que sinto que valeu  a pena na minha vida. Desenganas-te se pensas que falo de amor, de viagens de sucessos profissionais, todos foram certamente muito importantes, cada um à sua escala.
Mariana - Então falas do quê? só quero uma resposta simples.
(respostas simples, pois...)
Valeu a pena aprender a perdoar, sobretudo quem mais nos magoou; sentir que existem coisas que não nos compete a nós fazer justiça. Deus, o universo, a vida...enfim, qualquer coisa... encarrega-se disso, mesmo que não cheguemos a saber que a justiça foi feita... (diz o ditado "o mal dos nossos avós pagamos nós").
Sentir que se foi sincero e integro de sentimentos; que se viveu acima das raivas e vinganças mesquinhas; que as pessoas que estão connosco, estão por opção, de coração, sem amarras...
Saber que em momento algum o meu inconsciente, os meus pensamentos, o coração ou a consciência me apoquentam e que estão em paz é muito compensador.
Porque é que isto é importante, porque falo nisto?
Porque no outro dia, na paragem de autocarro, na fila, ali mesmo atrás de mim alguém falava ao telemóvel e dizia (e isto é mesmo verdade, eu estava incrédula, não apenas pelo acto em si mas por a pessoa o estar a dizer em voz alta) , "não aguento mais, esta dúvida e esta certeza de que ele ficou comigo por chantagem e não porque me ama. Eu venci mas lá no fundo sei que ele não é feliz e que não a esqueceu".
Tive pena da mulher, porque na verdade tenho pena das mulheres que são capazes de fazer tal, engravidar para "prender" o companheiro; ameaçarem matar-se ou outras coisas tais...
O mundo é um lugar estranho e o ser humano nem se fala.
Bem Mariana, só te posso dizer que vale a pena ser íntegra de sentimentos e de acções. 
Não era isto que Mariana queria ouvir, mas era isto que eu precisava de lhe dizer, embora tenha  a certeza que esta resposta não teve qualquer interesse sociológico para a Mariana.



DOS AFECTOS

Como fazer-te saber que há sempre tempo?

Que temos que buscá-lo e dá-lo…

Que ninguém estabelece normas, senão a vida…
Que a vida sem certas normas perde formas…
Que a forma não se perde com abrirmo-nos…
Que abrirmo-nos não é amar indiscriminadamente…
Que não é proibido amar…
Que também se pode odiar…
Que a agressão porque sim, fere muito…
Que as feridas fecham-se…
Que as portas não devem fechar-se…
Que a maior porta é o afecto…
Que os afectos definem-nos…
Que definir-se não é remar contra a corrente…
Que não quanto mais se carrega no traço mais se desenha…
Que negar palavras é abrir distâncias…
Que encontrar-se é lindo…
Que o sexo faz parte da lindeza da vida…
Que a vida parte do sexo…
Que o porquê das crianças tem o seu porquê…
Que querer saber de alguém não é só curiosidade…
Que saber tudo de todos é curiosidade malsã…
Que nunca é demais agradecer…
Que autodeterminação não é fazer as coisas sozinho…
Que ninguém quer estar só…
Que para não estar só há que dar…
Que para dar devemos antes receber…
Que para nos darem há também que saber pedir…
Que saber pedir não é oferecer-se…
Que oferecer-se, em definitivo, não é querer-se…
Que para nos quererem devemos mostrar quem somos…
Que para alguém ser é preciso dar-lhe ajuda…
Que ajudar é poder dar ânimo e apoiar…
Que adular não é apoiar…
Que adular é tão pernicioso como virar a cara…
Que as coisas cara a cara são honestas…
Que ninguém é honesto por não roubar…
Que quando não se tira prazer das coisas não se vive…
Que para sentir a vida temos de esquecer que existe a morte…
Que se pode estar morto em vida…
Que sentimos com o corpo e a mente…
Que com os ouvidos se escuta…
Que custa ser sensível e não se ferir…
Que ferir-se não é sangrar…
Que para não nos ferirmos levantamos muros…
Que melhor seria fazer pontes…
Que por elas se vai à outra margem e ninguém volta…
Que voltar não implica retroceder…
Que retroceder também pode ser avançar…
Que não é por muito avançar que se amanhece mais perto do sol…
 Como fazer-te saber que ninguém estabelece normas, senão a vida?
 Mario Benedetti

12/05/2011

A Medida Da Paixão




A Medida Da Paixão

Lenine

Composição : Lenine/dudu Falção
É como se a gente
Não soubesse
Prá que lado foi a vida
Por que tanta solidão?
E não é a dor
Que me entristece
É não ter uma saída
Nem medida na paixão...
Foi!
O amor se foi perdido
Foi tão distraído
Que nem me avisou
Foi!
O amor se foi calado
Tão desesperado
Que me machucou...
É como se a gente
Pressentisse
Tudo que o amor não disse
Diz agora essa aflição
E ficou o cheiro pelo ar
Ficou o medo de ficar
Vazio demais meu coração...
Foi!
O amor se foi perdido
Foi tão distraído
Que nem me avisou
Nem me avisou!
Foi!
O amor se foi calado
Tão desesperado
Que me maltratou...