20/06/2010

Ó neve tu és tão forte...


Em criança tinha medo do escuro, não fora a imagem do anjo da guarda que se encontrava por cima da minha cama e teria passado muitas noites em branco. Como qualquer criança, achava que debaixo da minha cama existia um mundo de monstros e fantasmas, mesmo sem assistir à  panóplia dos desenhos animados que existem actualmente e muito antes do oriente nos aculturar com a torneira de desenhos animados vindos do Japão. Vasco Granja brindava-nos com o seu programa de animação e o mais a leste que tínhamos era da Checoslováquia.
As séries eram o Bonanza, os pequenos vagabundos, a casa na pradaria... De uma forma ou de outra a mensagem era a dos bons valores, da justiça e a de que o bem compensava sempre. Excepção feita aos filmes de índios e Cowboys, em que  os índios eram os maus e os americanos os bons; mas  distorcer a realidade é coisa que os americanos continuam a fazer.
Os livros, cedidos pela biblioteca itinerante da Gulbenian, eram da editora Majora e tinham sempre no final algo que eu achava extraordinário "Moral da História:..."
Cresci acreditando que o bem compensa sempre e os maus, mais tarde ou mais cedo serão castigados. E, mesmo agora, em que os cabelos vão branqueando, ainda dou por mim a ter laivos dessa inocência.
Mais tarde tive medo de me perder. Depois foram os medos dos adultos, medo por aqueles que dependem de nós, medo de perder o amor da nossa vida, medo de perder o que alcançamos. Um medo mais elaborado, sobretudo porque temos que o disfarçar e impedir que se manifeste. 
Sempre tive medo de não conseguir perdoar. O perdão é algo que acredito ser indispensável para prosseguirmos a vida sem ressentimentos e equilibradamente, por isso nas minhas preces sempre solicitei a capacidade de perdoar. Alcancei a capacidade de perdoar os outros mas esqueci-me de aprender a perdoar-me a mim mesma. 
Perdoar-me pelas más escolhas, pela forma desajeitada como geri, em certos capítulos, a minha vida, perdoar-me pelas ingenuidades; perdoar-me por ter amado a pessoa errada, perdoar-me por não ter sabido torná-la na pessoa certa; perdoar-me por não ter sido melhor filha, enfim, perdoar-me até pela minha dificuldade em me perdoar...  e tudo isto, não sei se pelo avançar da idade ou pela força das circunstâncias, ultimamente dá-me medo. 
E, apesar de tudo não sou uma pessoa medrosa.
Porém, no outro dia senti medo. Medo porque o precipício esteve a um milímetro de me apanhar. Quando a médica me disse "esteve a um passo de ter um AVC",  percebi o quanto o medo é aterrador.  Ela falava "se não pára o seu corpo vai cobrar-lhe". A médica continuava a falar e eu lembrei-me dos monstros e fantasmas que existiam debaixo da minha cama; lembrei-me dos gritos de alerta do meu corpo e da minha recusa em ouvi-los, como se o meu cérebro fosse o mais forte. É forte porque dominou o meu  coração,  mas não é tão forte assim. Senti-o na sexta feira, quando ele deixou de querer funcionar.
Lembrei-me então daquela lengalenga que  a minha me contava:

Uma formiga prendeu o pé na neve.
–Ó neve! tu és tão forte, que o meu pé prendes!
Responde a neve:
–Tão forte sou eu que o Sol me derrete.
–Ó sol! tu és tão forte que derretes a neve que o meu pé prende!
Responde o Sol:
–Tão forte sou eu que a parede me impede.
– Ó parede! tu és tão forte que impedes o Sol, que derrete a neve que o meu pé prende!
Responde a parede:
–Tão forte sou eu que o rato me fura.
–Ó rato! tu és tão forte que furas a parede, que impede o Sol, que derrete a neve que o meu pé prende!
Responde o rato:
–Tão forte sou eu que o gato me come.
–Ó gato! tu és tão forte que comes o rato, que fura a parede, que impede o Sol, que derrete a neve que o meu pé prende!
Responde o rato:
–Tão forte sou eu que o cão me morde.
–Ó cão! tu és tão forte que mordes o gato, que come o rato, que fura a parede, que impede o Sol, que derrete a neve que o meu pé prende!
Responde o cão:
–Tão forte sou eu que o pau me bate.
–Ó pau! tu és tão forte que bates no cão, que morde o gato, que come o rato, que fura a parede, que impede o Sol, que derrete a neve que o meu pé prende!
Responde o pau:
–Tão forte sou eu que o lume me queima.
–Ó lume! tu és tão forte que queimas o pau, que bate no cão, que morde o gato, que come o rato, que fura a parede, que impede o Sol, que derrete a neve que o meu pé prende!
Responde o lume:
–Tão forte sou eu que a água me apaga.
–Ó agua! tu és tão forte que apagas o lume, que queima o pau, que bate no cão, que morde o gato, que come o rato, que fura a parede, que impede o Sol, que derrete a neve que o meu pé prende!
Responde a água:
–Tão forte sou eu que o boi me bebe.
–Ó boi! tu és tão forte que bebes a água, que apagas o lume, que queima o pau, que bate no cão, que morde o gato, que come o rato, que fura a parede, que impede o Sol, que derrete a neve que o meu pé prende!
Responde o boi:
– Tão forte sou eu que o carniceiro me mata.
– Ó carniceiro! tu es tão forte que matas o boi, que bebes a água, que apagas o lume, que queima o pau, que bate no cão, que morde o gato, que come o rato, que fura a parede, que impede o Sol, que derrete a neve que o meu pé prende!
Responde o carniceiro:
–Tão forte sou eu que a morte me leva.
Somos todos mortais!

6 comentários:

Tertúlias... disse...

quanta emocao me trouxestes com este escrito... e no final... a formiguinha: sim, incrível, foi esta que foi a razao da minha primeira postagem aqui. Em 2008.
Que beleza e coincidencia!!!! Ricardo

Rafeiro Perfumado disse...

E essa é a principal lição a tirar. Abranda então o teu ritmo, não queiras fazer parte da lenga-lenga.

Beijoca!

Rosa dos Ventos disse...

O coração prega-nos destas partidas!
Eu também tenho uma carga suficiente em cima mas não tenho medo de morrer!
O pior é perdermos aqueles que amamos!
Mas tem cautela contigo!
Muito juizinho!- como diz a minha cardiologista...

Abraço

Ana Paula Sena disse...

É preciso ler e escutar os sinais que o corpo nos dá. Abrandar pode ser uma prioridade inadiável. É isso que eu sinto também, inúmeras vezes.

Bom repouso!

E obrigada por partilhares esta questão connosco (às vezes, tendo a esquecer-me).

Um abraço

lis disse...

Me vi todinha nesse texto, os medos dos monstros não só debaixo da cama ,mas por todos os lados. Não só o medo como uma certa tristeza me invadiu ao ler seu texto tão emotivo pra mim, , a de nao ter acertado em muitas coisas , essas todas que voce citou. E verficar a fragilidade que somos e como só descobrimos isso quando o tempo escoou entre os dedos como areia do mar.
O tempo que trabalha contra nós, tirando o brilho dos olhos ,a suavidade da pele ,a maciez dos cabelos.
Que os sinais apresentados sejam um alerta pra voce botar o pé no freio e parar de acelerar seu coração. Vamos devagarinho agora, ok ?
muitos abraços muitos

Sunshine disse...

Às vezes esquecemo-nos de ouvir as vozes mais importantes e uma delas é sem sombra de dúvida a do nosso corpo, que tantas vezes tratamos bem pior que ao nosso automóvel.
Concordo, o mais díficl é perdoarmo-nos e tenho tantas dificuldades em aceitar tantas coisas iguais às que enumeras.
Melhoras!
beijinhos com raios de sol