12/07/2010

Sexta-feira à tarde


Os sentimentos…
Gosto de observar as pessoas, ouvir as suas histórias, mesmo que sejam assim apanhadas no meio do nada, incompletas. Muitos de vós  automaticamente pensaram ”cusca”. Direi antes que me interessando pouco pela vida dos que me rodeiam, gosto do abstracto. Passando uma vida em transportes públicos e em horas de travessia da ponte aprendi a me distrair. Comecei por construir histórias em volta dos rostos, depois a completar as conversas por forma a incorporar as pessoas em personagens de novelas, filmes ou de livros.
Ultimamente ando com menos concentração, a mente sempre ocupada em mil e uma coisas que não consigo cumprir e fui perdendo este hábito. Resta-me o vulgar prazer de ouvir as conversas dos outros.
Assim, na sexta-feira resolvi ir até ao Chiado beber uma caipiroska antes de enfrentar a fila. Telefonei a uma amiga que trabalha ali perto e ela logo respondeu que sim. Enquanto esperava por ela, fui pedindo e observando os grupos que aproveitavam aquele fim de tarde, uns mais animados que outros, uns estrangeiros outros talvez não.
O telefone toca e ela diz que afinal não vem. O meu primeiro pensamento foi pensar “que chatice”. Rapidamente mandei tal pensamento embora. Pedi uma salada (não tinha almoçado e começava a ficar indisposta; nada bom para associar uma caipiroska) e a dita bebida. Relaxei e aproveitei aquele momento. A mesa do lado direito tinha um grupo de jovens cheias de sacos, reflectindo uma tarde de saldos ali pela baixa (Não tem nada a ver, mas a Baixa está cada vez mais bonita e interessante).
Não sei se pela caipiroska se pela descontracção, ou se por ambas, o meu velho hábito de escutar as conversas voltou e ali fiquei deliciada a ouvir…O tema das jovens era “quais os sentimentos mais forte e que causam maior dano”. Porque se trata de afectos, a opinião de cada uma reflecte as suas vivências. Porém, cada uma defendia o seu ponto de vista como se fosse único e só ele estivesse certo.
-A inveja, sem dúvida, é a inveja o sentimento que mais pode magoar, dizia uma.
- A perda dizia outra. Já pensaste o que custa perder quem mais amamos, seja filho, mãe ou o nosso namorado (já sofreste, pensei).
-E o orgulho? Já pensaram o que uma pessoa sofre se for muito orgulhosa; vejam a Rita (como ninguém se queixou, deduzi que a Rita não estava presente).
- E o egoísmo? Imagina o que é teres que viver com uma pessoa egoísta.
Cada sentimento incluía a expressão de opinião de todas, quase ao mesmo tempo porque cada uma tinha muitos exemplos para dar.
Quase que me apetecia recomendar-lhes que vissem os sete pecados mortais. Fui perdendo o interesse nos argumentos à medida que a confusão se instalava. Mas eis que de uma forma serena e sem levantar a voz, uma jovem de cabelos compridos – tenho pena de não lhe ter visto o rosto, estava de costas – diz: - o sentimento que mais magoa é o abandono. Sabem o quão devastador é sermos abandonado por quem nos ama?
Fez-se silêncio, o que me levou a deduzir que a miúda tinha sido abandonada e que todas sabiam a história. Por quem? A mãe, o namorado? Quem causou tamanha ferida?
Deixei de me centrar na conversa das jovens e talvez porque a caipiroska fazia efeito comecei a percorrer outras histórias. Há coisas que devem ficar no sótão a qualquer dia da semana, mais ainda a uma sexta-feira. Mentalmente respondi: abandonar quem amamos é tão doloroso como ser abandonada por quem nos ama.
Pedi a conta e saí, sem que desse por isso a mesa tinha ficado vazia.

19 comentários:

Rafeiro Perfumado disse...

Ia-te chamar de "cusca", mas lembrei-me que costumo fazer o mesmo, com a agravante de não precisar de beber para o fazer! ;)

conchita disse...

Pior que ser abandonada, é a morte de um ser que nos é querido sem dúvida.
Uma boa semana, ah é verdade, prefiro uma caipirinha, lol!!

conchita disse...

Pior que ser abandonada, é a morte de um ser que nos é querido sem dúvida.
Uma boa semana, ah é verdade, prefiro uma caipirinha, lol!!

Oliva verde disse...

Afinal, dói a cada um o que a vida lhe reservou!
No entanto, na maioria dos casos está sempre subjacente uma perda.
Um abraço

Rosa dos Ventos disse...

Quem ama não abandona!
Se abandona é porque deixou de amar...


É bom uma caipiroska no Chiado!
Essa zona da cidade está cada vez mais bonita!

Abraço

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

Eu também sou "cusca", mas nos últimos tempos o meu sentido e observação anda pouco apurado,porque tenho muitas coisas a desviar-me a atenção...

com senso disse...

Às vezes acontece, mesmo sem querermos acabamos por ser testemunhas involuntárias de atitudes e conversas... E nessa em particular em que o tema era a dor, parece que a última moça que falou estava mesmo a sentir algo de profundo.
Para mim não há dor maior do que uma separação forçada de quem muito gostamos. Seja por morte, zanga, separação geográfica, ou simplesmente alteração de afectos.
Contudo a palavra "abandono" tem uma conotação muito pesada... Ser deixado para trás, como algo que não interessa mais, algo de desprezável, algo que perdeu a utilidade e o interesse... É terrivel!
Uma tarde solitária no Chiado pode assim levar-nos a reflexões profundas!

MagyMay disse...

Sou pouco cusca, o que acontece é que adoro observar e escutar as pessoas, "sentir-lhes a mente"... (safei-me?..rs).
Quanto à conversa da mesa ao lado da tua... cada um tem o peso da vivência do que lhe teve; o abandono (que tb é perda) é a dor maior, reduz a pó, definha.
Mas nada como "pedir a conta e sair", ou seja, como quando se mergulha fundo - impulso com pés na parede e.... emergir!!!
Tou filosofando, acho....

Ana Paula Sena disse...

Pois, a mim, pareceu-me um fim de tarde (e de semana) muito enriquecedor!

Partilhar dessa existência humana, no meio da qual estamos, sem tomar nota dela, isso é que é triste.

Os sentimentos mais dolorosos, a meu ver, estão relacionados com a perda definitiva (morte) de um ente querido.

Um abraço :) E obrigada (gostei muito de partilhar).

Há.dias.assim disse...

Rafeiro,
no fundo somos todos uns "cuscos"...
:)

Há.dias.assim disse...

Conchita,
sem dúvida perder um ente querido é muito doloroso.
A forma como reagimos às perdas, abandono, rejeição e outros demais sentimentos depende de muitos factores.Os afectos compõem um mundo, o nosso mundo, muito para além do lógico e do acessível á mente.

Há.dias.assim disse...

Oliva,
pois é...

Há.dias.assim disse...

Rosa-dos-ventos
se a vida fosse linear...

Há.dias.assim disse...

Carlos,
concordo, para sermos "cuscos" temos que ter disponibilidade, temos que estar em sintonia e de mente aberta.

Há.dias.assim disse...

Com senso,
nunca imaginamos a verdadeira história de cada um, o que existe por trás de um rosto...

Há.dias.assim disse...

Mag May
safaste-te...
:)
Bjocas

Há.dias.assim disse...

Ando a ter fins de tarde muito descontraídos e um pouco alcoolizados. nunca mais começo a dieta.
Ontem depois de um dia cheio de reuniões fomos beber uma marguerita à beira Tejo. Belém está espectacular. Adoro a nossa cidade!

Carlos Pires disse...

Ser abandonado por quem amamos mas que não nos ama verdadeiramente é pior, creio eu.

Há.dias.assim disse...

Carlos Pires,
também, também!
Bom fim-de-semana