22/01/2011

Sem assunto

Sempre detestei  ter que "fazer conversa" ou "deitar conversa fora" como dizem os brasileiros...
Passa-se o mesmo com a escrita. Não ando inspirada. Faltam-me as palavras. Não consigo falar mais de política, nem da crise, nem de histórias cheias de nem sei o quê, como o caso do cronista e do rapaz que achava que ia para o EUA, ficava hospedado num hotel de luxo, com tudo pago e que isso era tudo gratuito... Nunca ouviu a frase "não há almoços grátis!". 
A história do nome da filha de Luciana Abreu e do futebolista também já me cansou por ser cheia, ou vazia de qualquer coisa.
Certamente que o erro está em mim. Os adolescentes têm por hábito acharem cromos todos os que os rodeiam, esquecendo-se que os cromos são eles próprios. Talvez seja o meu caso...
Gostava de escrever algo sobre dignidade, de uma forma simples, mas que as palavras chegassem ao até todos.
Só queria que o meu país tivesse dignidade. Os políticos eleitos defendessem realmente o seu povo; os empregados e gestores dessem o seu melhor para que a produção aumentasse, que as pessoas parassem de se fazer de vítimas e de choradinhos e começassem realmente a trabalhar e não a pedir subsídios. Que os velhos não precisassem de contar moedas para comprar o pão... Enfim, que cada um de nós fosse mais digno.
(No outro dia falava com uma  amiga que é médica num populoso centro de saúde. Falávamos sobre dignidade - de como a sociedade, leia-se políticos,  roubou a possibilidade dos idosos poderem viver com dignidade - e ela disse-me: sabes como vejo a dignidade? - quando peço aos meus doentes para levantarem a camisola para os auscultar, vejo velhinhas com combinações de seda tão passajadas, tão cozidas, mas ainda assim tão arranjadinhas. Levantam a camisola e baixam os olhos, para que não possa ver nos olhos o que o auscultador não deixa transparecer. Depois chegam outras, arrogantes, a gritar, a exigir, sem o mínimo de educação e respeito...).
Também a propósito de dignidade, ou falta dela,  falava com uma tia sobre como se vive agora lá na aldeia.
Dizia-me- sabes filha, agora já há um Centro de Dia e há a Associação (e eu tentava perceber o que era a associação...). A associação faz comida barata para os pobres e os velhos. por 2,5€ podes levar uma boa dose para casa. 
-E a comida é boa tia?
- eu não vou lá. o tio não quer. Ainda podemos pagar, mal mas cá nos arranjamos. E depois lá ir é triste. Os ricos cá da aldeia enchem a boca que vão lá buscar comida, com  cinco euros têm almoço para a família. Como eles são a Menina F; a Senhora M. e etc.. o melhor bocado é para eles, e os velhos ficam com os restos. Ah! a dignidade, pensei.
-Tia, mas a junta de freguesia não faz nada? não deveriam pagar mais pela comida, essas que podem?
- A junta também de lá come!
- tia mas  agora que o F. está desempregado porque não vai lá de vez em quando? ah! não, ainda a minha mãe dava voltas na campa se soubesse que a filha andava de mão estendida!
Como percebem, não consigo escrever nada de jeito ou coerente. 
Dizem os sábios "quando as palavras que vais dizer não são mais bonitas que o silêncio, cala-te!"

15 comentários:

Cristina Torrão disse...

Eu gostei :)

E não, o erro não está em si...

Rita Norte disse...

Não só de palavras bonitas se fazem bons textos.
Eu gostei bastante, acho que todos deveríamos pensar um pouco sobre a nossa própria dignidade.
Beijo

Rosa dos Ventos disse...

Vês como não precisaste de inspiração?!
O teu post é de uma força!

Abraço

papoila disse...

Gostei muito do teu texto.
Gostei do tema e gostei que não falasse mal de ninguém!!!
beijinhos

Lilá(s) disse...

Com um post destes e ainda te achas sem inspiração?!
Gostei bastante e não te preocupes, andamos quase todos assim, desilusão com o país, com as pessoas, etc...sózinhos não conseguimos mudar tudo mas já fazemos algo pensando como tu.
Beijinhos

Há.dias.assim disse...

Cristina,
Obrigada!

Há.dias.assim disse...

Rita,
e está na nossa mão fazermos da dignidade a opção.

Há.dias.assim disse...

Rosa dos ventos
obrigada!
boa semana!

Há.dias.assim disse...

Papoila,
gostava de conseguir escrever e falar sem dizer mal, só por dizer.
Obrigada Papoila.

Há.dias.assim disse...

Lila,
andamos todos cansados, é verdade. Mas tenho saudades do tempo em que ter um espaço em branco era motivo para que as palavras deambulassem construindo um texto.
Há que respeitar o tempo, porque há tempo para tudo e cada coisa tem o seu tempo.

Oliva verde disse...

Sem inspiração??????
Pois, quando se escreve assim para que é precisa a inspiração?
Mas o que escreveste é coerente e com muito jeito!
Obrigada

Justine disse...

Esse é o UNICO assunto! Dignidade, honestidade, ética, estes são os únicos assuntos que de facto valem a pena discutir, e devem ser discutidos, como tu tão bem fazes no teu texto. E se nos calamos é temporariamente e por indignação, raiva, impotência - mas a voz acaba por soltar-se!

Há.dias.assim disse...

Oliva,
preocupa-me esta forma que os portugueses encontraram para sobreviverem. São como os pombos, têm asas para voar mas andam sempre a bicar no chão.

Há.dias.assim disse...

Pois é justine,
mas vai passando ao lado das gerações.
No outro dia ouvi uma miúda dos seus 20 e poucos anos com um discurso tão pouco digno que me deu pena e tristeza. "Eu tenho direito, eu tenho direito..." não oiço ninguém dizer que tem deveres...

Ana disse...

Não querendo dizer, ou achando que não queria dizer, ou ainda pensando que não conseguia dizer, disse. E muito bem.