16/09/2010

Seguir em frente...

Sempre achei graça a esta expressão: "Seguir em frente..."
Já a usei para me expressar, já a gritei para mim mesma, em momentos de desespero, já a balbuciei para amigos que julguei precisarem de ouvi-la.
Na verdade a expressão não é mais que uma redundância. Temos sempre que seguir em frente. A forma como o fazemos ou deixamos que a vida o faça é que pode fazer a diferença.
Na blogue-esfera é vasto o número de blogues em que a dor de alguém está patente, pela perda, pela rejeição, por variados motivos. Eu mesma já escrevi muito sobre isso em muitos outros blogues que tive ao longo dos anos.
Para dizer a verdade, escrevê-lo num blogue foi uma forma de fazer a minha catarse. Não sei se foi a mais correcta, a mais digna, a melhor... foi a que encontrei para apagar uma dor indescritível. 
Como é possível não "seguir em frente" quando alguém nos deixa para trás?
Como é possível? Fiz tantas vezes essa pergunta a mim mesma. O que mais me espanta é que o tenha feito de forma  a que todos o ouvissem, ou melhor, lessem, porque na realidade pouco falei do assunto a não ser por aqui, pelo blogue-bairro,  anonimamente...
Ah! como eu queria seguir em frente, apagar aquela dor, aquela ausência... Racionalmente sentia-me ridícula; por sentir tamanha dor por alguém que caminhava feliz, indiferente ao que deixou para trás, como se toda a "nossa" história, que para mim era a minha vida, não passasse de um devaneio...
À noite ao deitar dizia: - Vou seguir em frente!
Mas ao acordar lá estava eu, no mesmo local, a viver a minha história... com a mesma ladainha e com a sensação que era fraca porque não conseguia "seguir em frente"...
O que escrevia, a música que ouvia, o que lia, tudo se resumia ao mesmo. 
Tentar uma nova relação para provar a mim mesma que tinha seguido em frente, era para mim tão violento que se tornava impensável. Era uma afronta, uma traição aos meus valores, a mim mesma.
Julgava eu, tolamente, que não seguia em frente. Como se a vida permitisse tal. A vida seguiu, a um ritmo diferente, tal como a variabilidade dos batimentos cardíacos. A vida seguiu em frente, sim!.
Olho agora para trás e vejo o percurso desta caminhada; o quanto a vida seguiu em frente, muitas vezes indiferente à minha vontade, às minhas preces, mas cá estou. Mais velha, grisalha, sem ele e sem a concretização dos sonhos que planeamos os dois...Até já ponho a hipótese de voltar àquele país que nos uniu, um país que tinha morrido para mim. Lembro-me agora da velha máxima de Lennon "A vida é aquilo que acontece enquanto fazemos planos para o futuro.” 
Meu Deus, como foi difícil não ter tomado consciência que a vida se faz para a frente e não para trás, ou não permite um estacionamento.
Sim  a vida seguiu em frente! e sim, é possível voltar a ser feliz! de uma forma diferente, mas igualmente feliz! Mesmo sem que tenhamos tomado consciência que a vida segue sempre em frente... ao seu ritmo.

"Do rio que tudo arrasta, diz-se que é violento. Mas ninguém chama violentas às margens que o comprimem"
Brecht

9 comentários:

Isa GT disse...

A vida faz-se para a frente porque o tempo não pára e a infelicidade é, realmente, a derrocada dos nossos planos.
Se calhar, não se devia fazer tantos planos e saber aproveitar mais... cada momento de felicidade como se fosse o último.
Se vier outro, é bónus ;)
Para mim não há formas diferentes de felicidade, ou se está ou não se está feliz.
Mas tudo faz sentido, ora como saberíamos se estamos felizes ou não, se não houvesse infelicidade ou vice-versa? ;)
E quanto a planos, quanto mais ambiciosos forem, menos possibilidades temos de ser felizes, não será?

Bjos

lis disse...

Concordo !
a vida não pára pra que arrumemos nossos corações sofridos, ela segue em frente.
e bem ou mal acompanhamos , lá na frente o rio tem curvas , seixos e enchentes mas somos guerreiras e enfrentamos , seguindo ... em frente rsrs
muito bom o texto,bom pra tomar ânimo e mudar os paradigmas que teimam em permanecer.
Bom vir aqui .
abraços , boa noite

Kássia Kiss disse...

"Não sei se foi a mais correcta, a mais digna, a melhor... foi a que encontrei para apagar uma dor indescritível".

Se realmente ajudou a "trabalhar" a dor, foi correcta e adequada. Porque a dor só se supera depois de ser "trabalhada", ignorar a dor é o pior a fazer. Por isso, ninguém se deve sentir ou considerar "fraca" por, num certo momento, não conseguir aquilo que se convencionou chamar "seguir em frente".

Também adorei a frase do Brecht :)

trepadeira disse...

Maravilha de texto.
Quanto mais sensivéis e lúcidas são as pessoas mais a dor da ausência as castiga.
Brecht é o remate perfeito.
Um abraço,
mário

Há.dias.assim disse...

Isa,
fazemos planos, temos ilusões, desilusões... é a vida! e cada um faz o melhor que pode.

Há.dias.assim disse...

Lis,
cada um tem o seu tempo de "luto"; o seu tempo para aceitar que afinal nada é certo, que o amor não dura para sempre, e tem intensidades diferentes.

Há.dias.assim disse...

Kássia,
Já passou...

Há.dias.assim disse...

Mário,
Obrigada pelas gentis palavras.

Ana Paula Sena disse...

Seguir em frente é o único caminho.

Beijinho grande, minha querida.